segunda-feira, 7 de julho de 2008

Os conflitos contemporâneos, o nacionalismo e as lutas étnico-religiosas no mundo pós-Guerra Fria


As tentativas de construção de um mundo só sempre conduziram a conflitos, porque se tem buscado unificar e não unir”.
Milton Santos, Técnica, Espaço, Tempo.


Durante os 45 anos de guerra fria, as duas superpotências do mundo bipolar, EUA e URSS, exerceram influência direta ou indireta sobre quase todos os eventos de repercussão internacional, ocorridos nas mais diversas partes do mundo, o que fez com que muitos conflitos hoje vivenciados meio que passassem por um “congelamento”, pois o receio de se tornar um novo Vietnã – que foi invadido pelos EUA -, ou Afeganistão – invadido pela URSS - era evidente. Hoje em dia é possível afirmar que devido à interdependência econômica entre os países, e a existência de mecanismos supranacionais de negociação como a ONU – apesar de estar desmoralizada depois da guerra do Iraque -, a possibilidade de guerra entre os países do mundo desenvolvido parece ser cada vez menor.

Assiste-se, no entanto, na era pós-guerra fria, a um ressurgimento de movimentos nacionalistas que se julgava superados e uma multiplicação de conflitos localizados, especialmente em países periféricos e em alguns dos países que compunham o bloco socialista, pois foi no seu interior que se manifestou uma série de confrontos armados de cunho nacionalista que surpreenderam o mundo, pela violência que desencadearam.

Para melhor compreender cada um desses conflitos é preciso entender primeiro três conceitos base:

1) Nação – Nação é um conjunto de pessoas, ou povo, que têm as mesmas origens históricas, a mesma cultura e uma identidade em comum. Exemplo: As tribos indígenas brasileiras, Os curdos, etc.
2) Território – É uma parte do Espaço Geográfico delimitado por fronteiras e mantido através de relações de poder.
3) Estado – É o poder centralizado que comanda o Território e representa muitas vezes a nação.

A questão dos Bálcãs
Situado no centro da montanhosa península balcânica, o território da Iugoslávia reduziu-se a menos da metade de sua extensão com a independência de quatro de suas ex-repúblicas, nos anos 90, após o fim do bloco socialista que patrocinava o regime de domínio dos sérvios sobre as demais nações que compunham aquela região. Esse regime deu início a um longo conflito que se arrasta até os dias de hoje.
A oposição sérvia ao movimento separatista, sob a liderança de Milosevic, aliada aos antagonismos entre os grupos nacionais provoca a pior guerra civil da Europa contemporânea (1991 – 1995).

LESTE EUROPEU PÓS-GUERRA FRIA

Desde 1992, a Iugoslávia é formada apenas por Sérvia e Montenegro. Um acordo assinado em 2002 arquiva os planos separatistas de Montenegro, ao estabelecer uma nova união entre as duas repúblicas.

Kosovo
Permanece sob o controle internacional, embora pertença formalmente à Iugoslávia desde 1999 com o acordo de paz assinado. A administração da província está a cargo de uma missão da ONU, que tem a tarefa de reduzir a tensão entre sérvios e albaneses.

A resistência Chechena ao domínio russo
A Chechênia, uma das repúblicas russas de população muçulmana, declara independência em 1991, depois do colapso da URSS. As hostilidades aumentam em 1994, e tropas russas invadem o território, mas são derrotadas. Cerca de 100 mil pessoas morrem em dois anos de conflito, encerrado em 96 com um acordo de paz que adia a decisão sobre o status político da república. Chechenos, em agosto de 99, invadem o Daguestão, também muçulmana para formar um Estado islâmico. O presidente Putin apóia à coalizão antiterrorismo pós 11 de setembro e afirma que separatistas mantêm vínculos com os terroristas envolvidos nos ataques aos Estados Unidos.

Irlanda do Norte
Dominada há séculos pelo Reino Unido, a Irlanda do Norte, também chamada de Ulster, é palco de antigo conflito entre comunidade protestante (58%) e católica (42%) que vivem lado a lado. Enquanto os protestantes aprovam a união com a coroa britânica (unionistas), os católicos reivindicam a integração de Ulster à República da Irlanda – país de maioria católica. Nas eleições para o parlamento de Ulster os protestantes sempre obtêm maioria e excluem os católicos do governo. Em contrapartida o movimento dos católicos por direitos civis cresce em embates liderados pelo Ira, que também promove atentados terroristas nas Inglaterra. A violência do Ira e de grupos paramilitares protestantes debilita a economia e dificulta acordos de paz.

A questão Basca
Encravada entre o norte da Espanha e o sudoeste da França a região basca tem uma cultura própria, sobretudo a língua, euskara, e sustenta um movimento nacionalista desde o fim do século XIX. É um típico conflito de uma nação em busca do reconhecimento do seu Estado. A campanha pela independência cresce com a fundação, em 1959, da organização separatista pátria basca e liberdade (ETA). Com a constituição espanhola de 78, o país basco conquista alto grau de autonomia, apesar disso alguns remanescentes do ETA decidem continuar com a luta. Atentados atribuídos ao ETA matam mais de 800 pessoas desde 68 quando desencadeiam a luta armada.

O Apartheid
A partir de 1911, na África do Sul, a minoria dominante branca descendente dos ingleses, promulga uma série de leis que consolida seu poder sobre a população negra. A política de segregação racial do apartheid (separação em africâner) é oficializada em 1948. Algumas medidas do apartheid:

1) Impede o acesso dos negros à propriedade da terra e a participação política;
2) Obriga-os a viver em zonas residenciais segregadas;
3) Torna ilegais casamentos e relações sexuais inter-raciais;
4) Torna Obrigatório o uso, por parte dos negros, do “Passbook”, uma espécie de passaporte para que os mesmos pudessem circular livremente pelo país.

A oposição ao apartheid toma forma na década de 50 seu líder, Nélson Mandela, é preso em 62 e condenado à prisão perpétua. Em 1990, Mandela é libertado e em 1994 eleito presidente da África do Sul nas primeiras eleições multirraciais da história do país, consolidando o fim do apartheid.

As FARC e o Plano Colômbia
Ex – combatentes liberais criam em 1965 as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que é subsidiada principalmente pelo tráfico de cocaína. Estima-se que essa região produza mais da metade da cocaína consumida no mundo. Outras guerrilhas de esquerda, como o exército de libertação nacional (ELN) e o movimento revolucionário 19 de Abril (M – 19), são fundadas nos anos seguintes, e a guerra civil avança no país. Em 98, com plano centrado na pacificação do país, o governo tenta sem sucesso negociar com as guerrilhas.
Na visão de Washington e do governo colombiano, a eliminação do plantio de coca é crucial para a pacificação do país. O plano Colômbia tem por objetivo oficial acabar com a produção de droga no país e conta com a ajuda logística dos EUA, no entanto, é preciso observar bem de perto esse caso, pois ele se passa na Amazônia, e é fato conhecido que os EUA têm interesse especial nessa região. Até agora os resultados tem sido insatisfatórios, pois de acordo com dados da CIA o cultivo da coca cresceu 24,7% em 2001.

O MUNDO ISLÂMICO

O islamismo é a religião que mais cresce atualmente, há mais de 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo. A maior concentração está na Ásia e na África, embora tenha se expandido muito na Europa Oriental.

Distribuição da População Muçulmana no mundo.

De um lado, o terrorismo radical elegeu os Estados Unidos como a representação de todo o mau que existe no mundo ocidental, do outro, o islamismo prega o respeito por outras crenças, e se auto proclama a religião da paz.

O Oriente Médio caracteriza-se por sua posição geográfica estratégica como fornecedor de petróleo para um grande número de países poderosos, pelo quebra-cabeça político representado pela convivência difícil entre o Estado Judaico, seus vizinhos árabes e a população palestina, que reivindica a criação de um Estado Nacional próprio, e pelas diferenças culturais entre ocidente e oriente. O Oriente Médio constitui-se ainda no principal foco de tensões mundiais, mesmo no período pós-guerra fria.

A questão da Palestina
A Palestina, uma estreita faixa de terra desértica, que se estende ao longo do mediterrâneo, entre o Líbano e o Egito, tem sido objeto, há mais de 50 anos, de uma violenta disputa que envolve israelenses e palestinos.

O Estado de Israel foi criado em 1948, pela ONU, oficialmente para abrigar o povo judeu que estava espalhado pelo mundo, no entanto, a ONU foi coagida pelos EUA para a formação do Estado de Israel, pois era importante para os planos geopolíticos estadunidenses dominar aquele ponto estratégico localizado “na porta do Oriente, ao norte da África, abaixo da Europa e de frente para o Mediterrâneo”. O que é lamentável, é que a ONU desconsiderou a existência do povo palestino, e uniu no mesmo país dois povos historicamente irmãos e inimigos. Desde então é um sonho para o mundo islâmico a retomada dessa área e a formação de um Estado Palestino.

A questão da Caxemira
Situada na cordilheira do Himalaia, a Caxemira é o pivô de uma disputa envolvendo Índia e Paquistão desde a independência. Em 1947, logo após a divisão, a Índia e o Paquistão entram em guerra pelo controle da Caxemira, conflitos que se encerra no ano seguinte com a primeira divisão da Caxemira entre os dois países. A hostilidade indiano–paquistanesa se enquadra na guerra fria – a Índia tem apoio soviético, e o Paquistão respaldo estadunidense.

A questão dos Curdos
Maior etnia sem Estado do mundo, os curdos habitam uma vasta região de 500 mil quilômetros quadrados, que extrapolam as fronteiras da Turquia, da Armênia, do Azerbaijão, do Irã, e do Iraque. São majoritariamente muçulmanos sunitas e falam o idioma curdo. A partir dos meados do século XX ocorrem rebeliões na Turquia e no Iraque e surge o projeto de um Estado curdo na região (o Curdistão). Os governos reprimem com violência os separatistas


A DOUTRINA BUSH

Os desdobramentos dos atentados de 11 de setembro de 2001 continuam em 2003. Graças ao prestígio adquirido na ocasião, Bush escapa ao desgaste provocado pelos escândalos contábeis das grandes corporações e o desaquecimento da economia norte-americana, colocando seu conflito contra o Iraque no centro da agenda internacional e empurra o Partido Republicano à vitória nas eleições legislativas de novembro. A vitória tornou-se mais fácil com a chamada Doutrina Bush. A anunciada em setembro, essa doutrina é considerada agressiva. Por ela os EUA se arrogam o direito de agir preventivamente, atacando potenciais adversários e agir sem o aval da ONU. Depois de derrubar o regime Taliban, no Afeganistão, o governo Bush elege o Iraque côo alvo principal de sua cruzada contra o terror.

O Ataque estadunidense ao Iraque
O Iraque é um país rico em petróleo, não possui saída para o mar, e foi governado pela ditadura violenta de Saddam Hussein, figura entre os países acusados de abrigar terroristas islâmicos, e esteve envolvido no início da década de 90 com a invasão do Kuwait. Nesse ano o Iraque foi vítima de vários ataques provindos da aliança EUA – Inglaterra, liderada por Bush e Blair. Os mesmos usaram como justificativa ao ataque a posse de armas químicas de destruição em massa por parte do Iraque, de acordo com suas justificativas, os EUA e a Grã-Bretanha estavam agindo preventivamente, devido os ataques terroristas ocorridos ultimamente.
O ataque ao Iraque, portanto, faz parte de um plano de ações geoestratégicas chamado de “guerra contra o terror”, onde os EUA acham que com esse pretexto têm o direito de atacar qualquer país do mundo, inclusive, sem o aval da ONU, que notadamente enfraqueceu-se após esse episódio.


A Guerra do Golfo
A tentativa de anexar o Kuwait resulta em um ataque de uma coalizão de países liderados pelos EUA, em janeiro e fevereiro de 1991. Após a libertação do Kuwait, o Conselho de Segurança da ONU requisitou ao Iraque que se desfizesse de todos os armamentos de destruição em massa e mísseis de longo alcance e que permita inspeções por parte da ONU. Sanções comerciais da ONU continuavam vigorando devido ao cumprimento incompleto do Iraque de resoluções relevantes da organização.

A Coréia do Norte
A península coreana voltou ser centro de atenção internacional (a guerra da Coréia ocorre em 1950-53), depois do Bush ter incluído a Coréia do Norte no chamado eixo do mal, ao lado do Iraque. Acusado de possuir armas nucleares, o regime de Pyonggyang passa a ser pressionado por Washington. Isso ocorre no momento em que o ditador Kim Jong II procura sair do isolamento, promovendo reformas econômicas e aproximando-se da Coréia do Sul e do Japão. Ao combater o regime norte-coreano, Bush dificulta o processo de reunificação do país sob a liderança sul-coreana. Cada vez mais prospera, a Coréia do Sul vem procurando escapar da tutela norte-americana e vislumbra na reunificação a possibilidade de se transformar em regional.
A luta do Bush contra o terrorismo fundamenta-se nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Em 12 de outubro de 2002, duas bombas explodem na paradisíaca ilha de Bali, na Indonésia, com mais de 180 mortos, a maioria turistas australianos, as autoridades culpam grupos terroristas ligados a Al Qaeda, de Osama bin Laden.

O CONTEXTO LATINO

O caso da Venezuela
De um lado, o companheiro de Fidel Castro, perigo para a estabilidade da América Latina. De outro, um país imperialista com interesse nas riquezas do sul do continente americano. Desde 1998, com a subida de Hugo Chávez ao poder, críticas e acusações dominam a relação entre a Venezuela e os Estados Unidos. A divergência entre os dois países não se encontra apenas no campo do discurso. Interesses econômicos são importantes fatores que conduzem o rumo dessa relação.

Petróleo
As relações entre os países dependem de múltiplos interesses, entre eles, o econômico. No caso da Venezuela e dos EUA, estão envolvidos recursos naturais importantes, como o petróleo.
Desde os anos 20, o petróleo sustenta a Venezuela que, hoje, ocupa o quinto lugar na produção mundial do produto. Naquele tempo, a política refletia a situação econômica do país, com uma minoria branca e rica no poder e o restante da população vivendo à margem do sistema. Há 40 anos, dois partidos políticos revezavam-se no governo. Para as empresas estrangeiras, principalmente as do ramo petrolífero, vigorava a tranqüilidade nos negócios.
Nos anos 1990, esse sistema de revezamento político passou por problemas, esgotado pela corrupção. A Venezuela enfrentava as conseqüências das reformas neoliberais mal planejadas, além de variações no próprio preço do petróleo. Com isso, o país entrou numa forte crise política e econômica. Foi a oportunidade de Chávez para subir ao poder.

Presidente venezuelano e a economia
Hugo Chávez define-se como um representante das massas que iria implantar um sistema político-econômico próximo ao socialismo, um discurso que confronta a posição ideológica norte-americana.
Em termos econômicos, os EUA ainda são os principais parceiros nos negócios da Venezuela. Mas o cenário não anda tão previsível como antes. Em 2001, Chavéz ratificou medidas legislativas que, entre outras coisas, centralizavam o controle do petróleo para o governo. Recentemente, numa sessão plenária em praça pública, o congresso venezuela aprovou um pacote de medidas que conferem poderes especiais ao Presidente Chávez, dando-lhe “superpoderes” e conferindo-lhe a possibilidade de tomar medidas sem consultar ao congresso antes.
A preocupação com perdas econômicas motivou o golpe para derrubar Chávez, em 2002. A iniciativa fracassou e Hugo Chávez confirmou o apoio popular em um referendo nacional realizado em agosto de 2004 e em sua reeleição em 2006. O presidente venezuelano acusa os norte-americanos de participação no golpe, afirmação negada pelos EUA.

Um comentário:

Maria Luísa disse...

Muito bons esses textos que você colocou. Ei você acha que a libertação de Ingrid Betancourt das FARC foi , de fato, uma operação do exército colombiano sem envolver pagamento de milhões aos narcoguerrilheiros?