quinta-feira, 31 de julho de 2008

Algumas imagens (parte 01)


Algumas imagens possuem o eloqüente silêncio que incomodam os ouvidos e os olhos das consciências decentes. A imagem é uma montagem, claro. Mas, como eu gostaria de vê-la apenas como montagem e não como um retrato do pais que eu não queria ver.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Desafio em casa (parte 04)

Mais um desafio em casa de História. Leia a questão e procure respondê-la. Teremos o maior prazer em tirar eventuais dúvidas.

(Unicamp) "Todo o poder vem de Deus. Os governantes, pois, agem como ministros de Deus e seus representantes na terra. Conseqüentemente, o trono real não é o trono de um homem, mas o trono do próprio Deus". (Jacques Bossuet, POLÍTICA TIRADA DAS PALAVRAS DA SAGRADA ESCRITURA, 1709)


"(...) que seja prefixada à Constituição uma declaração de que todo o poder é originalmente concedido ao povo e, conseqüentemente, emanou do povo". (Emenda Constitucional proposta por Madison em 8 de junho de 1789)

a) Explique a concepção de Estado em cada um dos textos.

b) Qual a relação entre indivíduo e Estado em cada um dos textos?

Dominguinhos e Yamandu Costa

Não me aguentei. Tive que postar.

Acabei de assistir Yamandu Costa e Dominguinhos no YouTube. Lindo! Em tempos de "chupa que é de uva" e de "créu", escutar dois músicos desse calibre tocando juntos o que há de mais fino no repertório da MPB é um delírio.

Yamandu Costa é um violonista prodígio. Aos 18 anos foi vencedor do Prêmio Visa de Música Instrumental tocando "O trenzinho caipira", de Heitor Villa-Lobos. De lá pra cá, a saga desse gaúcho tem sido de muito sucesso nacional e, principalmente, internacional (infelizmente, pouco valorizamos nossos bons frutos). Dominguinhos dispensa comentários. Só em citar seu nome, já dizemos tudo.

Tirando Hebe Camargo, que aparece no final e faz questão de sussurar ao microfone no meio da música, o vídeo é lindíssimo. Nos deixa sem palavras.


terça-feira, 29 de julho de 2008

Um mês de blog


Hoje, 29 de julho, completamos um mês de blog. E comemoramos com muita felicidade, pois já alcançamos 3973 acessos, numa média diária de 132, fato incrível para um blog de educação voltado para o vestibular.

Nosso esforço em atualizar diariamente a página tem sido recompensado pelos elogios e a participação dos alunos, comentando pessoal ou virtualmente. Esperamos que a nossa iniciativa esteja agradando a todos!

Um forte abraço a todos vocês!

Da equipe Cis.

Nota 02

Estendendo os agradecimentos da equipe de História do CIS, a equipe de Geografia composta pelos professores Agenor Pichine,Bosco e Sami Andrade,também agradecem o comparecimento e a forma exemplar como se portaram os alunos nesse primeiro evento conjunto.Esperamos que na aula do dia 03/08 o sucesso se repita e isso reflita numa forma a mais de apreensão do conteúdo visto em salas de aulas.Um abraço a todos e todas.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Comunidade CIS (parte 04).


"Por muito tempo, história foi uma disciplina que me causava antipatia. Estudá-la era um sacrifício: causava-me sono, impaciência. No entanto, ao ser aluno do CIS, isto mudou. Foi apresentada uma nova forma de estudar história: uma história comentada e raciocinada. Os professores nos inserem na disciplina, levando-nos a pensar em conjunto e vivenciar uma história ainda presente em nosso cotidiano, mostrando que ela ainda é viva e não é somente passado."
Pedro Henrique Alcantara, turma da segundo-feira vespertino, ex-aluno do Cefet, futuro médico.

Nota - Eles não usam black-tie.

A equipe CIS, composta pelos professores Luís Eduardo Brandão Suassuna (kokinho), Adailton Figueiredo, Henrique Lucena, João Carlos Rocha e Wellington Albano vem de público agradecer a participação e, sobretudo, a elegante conduta dos alunos que compareceram a aula e ao espetáculo "Eles não Usam Black-tie, realizado dia 27.07.2008, no auditório do Colégio das Neves. Nosso sincero agradecimento a todos e até uma proxima oportunidade!

Resposta do "desafio em casa" (parte 01)

O primeiro desafio proposto foi este:

(Unesp) "A idéia de 'bem comum', de 'utilidade comum', tão importante, por exemplo, em Aristóteles, foi aplicada à atividade dos mercadores pelos autores cristãos. Ligando esta idéia à do trabalho, São Tomás de Aquino (1225-1274) declarou: 'se alguém se entrega ao comércio tendo em vista a utilidade pública, se se quer que as coisas necessárias à existência não faltem ao reino, então o lucro, em lugar de ser visto como um fim, é somente reclamado como remuneração do trabalho'." (J. Le Goff, MERCADORES E BANQUEIROS NA IDADE MÉDIA)

Esclareça por que a Igreja Católica, na transição do Século XIII para o Século XIV, passou a admitir o lucro variável nas operações mercantis.

Para responder esta questão deve-se levar em conta:

- O contexto que levou a Igreja Católica a admitir lucros variáveis é o do Renascimento Comercial, ocorrido após a reabertura das rotas comerciais do mar mediterrâneo.

- A partir desse momento, houve o crescimento das atividades comerciais nas cidades européias e o surgimento da burguesia, classe que vivia em torno dos lucros obtidos com o fortalecimento da nova economia.

domingo, 27 de julho de 2008

Eles não usam black tie

Trinta minutos antes do começo da aula, assim estava a entrada do auditório do Colégio das Neves. Mais uma vez os alunos prestigiaram a equipe do CIS e compareceram em massa ao evento.

A expectativa era grande. O clima de euforia é perceptível em alguns depoimentos abaixo transcritos:

Renata, aluna do cursinho Contemporâneo, esperava uma aula maravilhosa.

Já William Barros, nosso aluno, acreditava que a aula seria excepcional, assim como foram as anteriores.


O aluno salesiano Álvaro Ramon tinha a expectativa de entender a peça e conhecer melhor a história recente da política nacional, uma vez que são dois assuntos importantes para o vestibular da UFRN.

A aula começou por volta das 14:30, sendo iniciada pela equipe de História, formada por Kokinho, Adailton, Henrique, João Carlos e Wellington. Foram cerca de 45 minutos de discussão sobre a República Populista e sua crise, bem como alguns pontos sobre a ditadura. Sami e Agenor entraram em seguida, comentando aspectos econômicos daquele período. Por fim, o professor Alexandre fez uma análise apurada de Eles não usam black-tie, obra selecionada pela Comperve.

Durante o intervalo, Danilo Cortez, aluno do Contemporâneo, nos disse que o aulão estava muito bom, com excelente análise, principalmente do período de Vargas. Além disso, continuou ele, “havia muita interação entre os professores, gerando descontração e, ao mesmo tempo, aprendizagem”.

Júlia e Débora, alunas do Pré do Contemporâneo, acreditam que a aula permitiu compreender o contexto histórico da obra, o que facilita o entendimento do texto de Guarnieri. “Gostei muito da aula e da equipe, inclusive dos professores que não conhecia”, confidenciou uma delas.

Após o intervalo, o grupo Companhia Cênica Ventura apresentou Eles não usam black tie. Foi um sucesso!

Mais um grande evento do CIS! Nos vemos no próximo domingo, 03 de agosto de 2008!


sexta-feira, 25 de julho de 2008

Democracia racial.

No Brasil, a história de seus conflitos e problemas envolveu bem mais do que a formação de classes sociais distintas por sua condição material. Nas origens da sociedade colonial, o nosso país ficou marcado pela questão do racismo e, especificamente, pela exclusão dos negros. Mais que uma simples herança de nosso passado essa problemática racial toca o nosso dia-a-dia de diferentes formas.
Em nossa cultura poderíamos enumerar o vasto número de piadas e termos que mostram como a distinção racial é algo corrente em nosso cotidiano. Quando alguém auto-define que sua pele é negra, muitos se sentem deslocados. Parece ter sido dito algum tipo de termo extremista. Talvez, chegamos a pensar que alguém só é negro quando tem pele “muito escura”. Com certeza, esse tipo de estranhamento e pensamento não é misteriosamente inexplicável. O desconforto, na verdade, denuncia nossa indefinição mediante a idéia da diversidade racial.
É bem verdade que o conceito de raça em si é inconsistente, já que do ponto de vista científico nenhum indivíduo da mesma espécie possui características biológicas (ou psicológicas) singulares. Porém, o saber racional nem sempre controla nossos valores e práticas culturais. A fenotipia do indivíduo acaba formando uma série de distinções que surgem no movimento de experiências históricas que se configuraram ao longo dos anos. Seja no Brasil ou em qualquer sociedade, os valores da nossa cultura não reproduzem integralmente as idéias da nossa ciência.
Dessa maneira, é no passado onde podemos levantar as questões sobre como o brasileiro lida com a questão racial. A escravidão africana instituída em solo brasileiro, mesmo sendo justificada por preceitos de ordem religiosa, perpetuou uma idéia corrente onde as tarefas braçais e subalternas são de responsabilidade dos negros. O branco, europeu e civilizado, tinha como papel, no ambiente colonial, liderar e conduzir as ações a serem desenvolvidas. Em outras palavras, uns (brancos) nasceram para o mando, e outros (negros) para a obediência.
No entanto, também devemos levar em consideração que o nosso racismo veio acompanhado de seu contraditório: a miscigenação. Colocada por uns como uma estratégia de ocupação, a miscigenação questiona se realmente somos ou não pertencentes a uma cultura racista. Para outros, o mestiço definitivamente comprova que o enlace sexual entre os diferentes atesta que nosso país não é racista. Surge então o mito da chamada democracia racial.
Sistematizado na obra “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, o conceito de democracia racial coloca a escravidão para fora da simples ótica da dominação. A condição do escravo, nessa obra, é historicamente articulada com relatos e dados onde os escravos vivem situações diferentes do trabalho compulsório nas casas e lavouras. De fato, muitos escravos viveram situações em que desfrutavam de certo conforto material ou ocupavam posições de confiança e prestígio na hierarquia da sociedade colonial. Os próprios documentos utilizados na obra de Freyre apontam essa tendência.

Ultimamente, os sistemas de cotas e a criação de um ministério voltado para essa única questão demonstram o tamanho do nosso problema. Ainda aceitamos distinguir o negro do moreno, em uma aquarela de tons onde o último ocupa uma situação melhor que a do primeiro. Desta maneira, criamos a estranha situação onde “todos os outros podem ser racistas, menos eu... é claro!”. Isso nos indica que o alcance da democracia é um assunto tão difícil e complexo como a nossa relação com o negro no Brasil.


Por Rainer SousaGraduado em HistóriaEquipe Brasil Escola

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Líder da Revolta da Chibata é anistiado 98 anos depois.



Brasília (AE) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou ontem a lei de autoria da senadora Marina Silva (PT-AC) que anistia post-mortem o marinheiro João Cândido, o “Almirante Negro”, líder da Revolta da Chibata, ocorrida em 1910. Além de João Cândido, outros 600 marinheiros que participaram da revolta também foram beneficiados. A lei teve um artigo vetado: o que tornava automática a concessão de reparação aos descendentes dos marinheiros por parte do governo federal. O argumento foi puramente financeiro: de acordo com a equipe econômica, o custo total das reparações poderia ultrapassar R$ 1 bilhão. Menos do que os R$ 2,4 bilhões que já foram pagos em indenizações por conta da ditadura militar, mas um gasto que o governo federal não estava disposto a assumir nesse momento. O veto, no entanto, não impede os descendentes de entrarem na Justiça para pedir as reparações. Apenas retira a obrigação automática, o que pode tornar o processo mais lento - e até mesmo impossível, em alguns casos, já que os descendentes teriam que provar o parentesco com alguém que morreu há quase 100 anos. O próprio João Cândido tinha uma filha, que morreu recentemente. Estão vivos, no entanto, alguns netos. A autora da lei, Marina Silva, foi informada do veto no momento da sanção, no gabinete do presidente Lula, na noite da última quarta-feira. A avaliação de Marina foi que o mais importante foi preservado, que era a anistia e a “reparação da injustiça” feita aos marinheiros. Segundo sua assessoria, a senadora compreendeu que o valor seria muito alto na forma em que a lei estava, mas espera que sejam definidos, depois, limites orçamentários para o pagamento das reparações. A Revolta da Chibata aconteceu em novembro de 1910, na baía de Guanabara (RJ), e começou a bordo do encouraçado Minas Gerais depois que o marinheiro Marcelino Menezes recebeu 250 chibatadas por ter levado cachaça para o navio. A ação já estaria sendo planejada para que os castigos físicos dos marinheiros - a maioria negros e mulatos, comandados por oficiais brancos - mas teria sido antecipada por conta do castigo excessivo de Marcelino. Em seguida à revolta no Minas Gerais, outros cinco navios ancorados aderiram.Depois de tensas negociações e uma anistia aprovada pelo Congresso, os marinheiros se renderam. Poucas semanas depois, no entanto, alguns foram expulsos da Marinha e outra revolta estourou na Ilha das Cobras, com 600 marinheiros. A maioria foi morta. João Cândido, um dos sobreviventes, foi internado no hospital dos alienados como louco e indigente. Dois anos depois, os revoltosos foram julgados e absolvidos, mas nunca receberam anistia nem reparações.

25.07.2008 - Fonte Tribuna do Norte.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Comunidade CIS (parte 03)

"O CIS é referência em qualidade por ter ótimos professores que sempre estão preocupados com a apredizagem do aluno, oferecendo material de boa qualidade e desenvolvendo aulas interativas, estimulando o aluno a estudar geografia e história. Por esses motivos o CIS oferece todas as condições para que seu aluno consiga a aprovação no vestibular.

Bruna Rafaely, turma da segunda-feira - vespertino, ex-aluna do Mundial, futura assistente social.

Para refletir um pouco... (parte 02)

Esse trecho é do Livro do Desassossego e tem cerca de 90 anos. Para mim, continua a ser atualíssimo.

“Nesta era metálica dos bárbaros só um culto metodicamente excessivo das nossas faculdades de sonhar, de analisar e de atrair pode servir de salvaguarda à nossa personalidade, para que não se desfaça ou para nula ou para idêntica às outras.

O que as nossas sensações têm de real é precisamente o que têm de não nossas. O que há de comum nas sensações é que forma a realidade. Por isso a nossa individualidade nas nossas sensações está só na parte errônea delas. A alegria que eu teria se visse um dia o sol escarlate. Seria tão meu aquele sol, só meu!”

(Fernando Pessoa, O livro do desassossego, p.341)

Desafio em casa (parte 03)

Quase três décadas depois do lançamento do maior programa de energia renovável do mundo, o Proálcool, o setor sucroalcooleiro vive nova onda de otimismo e atrai investimentos de peso para o país. Para completar o cenário otimista, o país obteve semana passada vitória histórica na Organização Mundial do Comércio
(OMC) contra os subsídios da União Européia para a produção de açúcar. (Adaptado de Renée Pereira, "Açúcar e álcool entram em nova era de prosperidade", O Estado de S. Paulo, 08 de agosto de 2004, p. B7).

a) Compare a atual onda de otimismo do setor sucroalcooleiro com as motivações que levaram à criação do Proálcool na década de 1970. Aponte as semelhanças e as diferenças entre esses dois momentos do setor sucroalcooleiro.

b) Os subsídios praticados pelos países desenvolvidos para sua agricultura acarretam dificuldades para esse setor nos países subdesenvolvidos. Explique essas dificuldades.

Comunidade CIS (parte 02)


"O diferencial do geohistória CIS é proporcionar ao aluno não somente a preparação para uma prova do vestibular, mas também permitir uma compreensão e análise de mundo mais ampla, ultrapassando os limites da sala de aula, de forma acessível, interativa e inovadora."

Laura Alves, turma da segunda-feira - vespertino, ex-aluna Henrique Castriciano, futura advogada.

Desafio em casa (parte 02)

Observe o mapa a seguir:


A intrincada dinâmica da política internacional, no início do século XXI, está ligada a questões étnicas, religiosas, nacionalistas e ao tráfico de drogas. Considerando os tipos de conflitos existentes e sualocalização geográfica, visualizada no mapa,
a) identifique o principal conflito existente nas áreas A e B;
b) caracterize o principal conflito existente na área C.

Desafio em casa (parte 01)

A partir de hoje postaremos questões para que vocês reflitam e respondam em casa. Daremos alguns dias para que todos possam ter acesso à pergunta e, no final, postaremos a chave de respostas. Teremos o maior prazer em auxiliá-los nas eventuais dúvidas que surgirem. É só nos procurar ou mandar um comentário.

Lá vai a primeira:


(Unesp) "A idéia de 'bem comum', de 'utilidade comum', tão importante, por exemplo, em Aristóteles, foi aplicada à atividade dos mercadores pelos autores cristãos. Ligando esta idéia à do trabalho, São Tomás de Aquino (1225-1274) declarou: 'se alguém se entrega ao comércio tendo em vista a utilidade pública, se se quer que as coisas necessárias à existência não faltem ao reino, então o lucro, em lugar de ser visto como um fim, é somente reclamado como remuneração do trabalho'."
(J. Le Goff, MERCADORES E BANQUEIROS NA IDADE MÉDIA)

Esclareça por que a Igreja Católica, na transição do Século XIII para o Século XIV, passou a admitir o lucro variável nas operações mercantis.

A farsa da legitimidade (parte 02)

E quem gostou do novo texto de Adailton, A farsa da legitimidade, pode também lê-lo no site do Jornal de Hoje, na coluna artigos, ou então clicando AQUI.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Comunidade CIS.

"Ao estudar com professor Adailton Figueiredo ano passado no pré, aprendi história e, principalmente, a gostar de estudar essa matéria que antes na minha cabeça era monótona. Então, como matéria específica de meu curso no vetibular, resolvi fazer a revisão do CIS por indicação dele e, na revisão, acabei gostando muito das aulas dos professores João Carlos, Wellington e Henrique, além de aprender dicas importantes. Como não consegui a aprovação no vestibular, o CIS foi o primeiro curso isolado que me veio à mente, pois confio nesses professores e em seus métodos, sempre mostrando e alertando sobre o que tem mais chances de cair no vestibular e aprofundando muito bem o assunto nas principais questões."

Adolfo Magalhães Cavalcanti, Turma da segunda-feira - vespertino, ex-aluno Salesiano, futuro advogado.

E a chuva levou...


Esta é minha última semana como professor do Cefet de Currais Novos. Nesses doze meses que lá passei, vivenciei muitas experiências diferentes, aspectos cotidianos que talvez jamais tivesse experimentado caso continuasse em Natal. Uma delas foi o inverno no interior, que muda vegetações e humores, transforma um árido sertão em um idílico interior alencarino. Certa feita sai de Currais Novos em direção ao Gargalheiras, maior açude das proximidades, e vi o espetáculo da sangria e a felicidade dos muitos que lá estavam presentes.

A chuva em demasia, é claro, alaga e destrói. Assim aconteceu em muitas regiões do nosso estado. Há alguns dias recebi um arquivo por e-mail com várias fotos das cheias, principalmente no vale do Açu. Achei interessante compartilhá-lo com vocês.

Para baixar o arquivo, clique AQUI.

Ps. Quando abrir o site do rapidshare, clique no botão FREE ou FREE USER (situado na parte de baixo da página). Feito isso, você terá acesso ao arquivo para download.

Falou e disse (parte 02)


Um dos grandes pensadores do século XX foi Antonio Gramsci, renovador do pensamento marxista e criador de análises interessantes, como a que versa sobre a participação dos intelectuais na política. Na esteira dos textos publicados por Adailton em nosso blog, pensei em colocar esse pequeno trecho do filósofo italiano, no qual se discute a indiferença política:


Odeio os indiferentes. Como Federico Hebbel, acredito que “viver quer dizer tomar partido”. Não podem existir os apenas homens, os estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. Por isso, odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte na qual freqüentemente se afogam os entusiasmos mais esplendorosos.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; é aquilo com o que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mais bem construídos. É a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se deve tanto à iniciativa dos poucos que atuam, quanto à indiferença de muitos. O que acontece não acontece tanto porque alguns o queiram, mas porque a massa dos homens abdica de sua vontade, deixa fazer, deixa enrolarem os nós que, depois só a espada poderá cortar; deixa promulgar leis que, depois, só a revolta fará anular; deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. Os fatos amadurecem na sombra porque mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões restritas, os objetivos imediatos, as ambições e paixões pessoas de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens ignora, porque não se preocupa.


Quem melhor do que Gramsci para falar de indiferença política? Afinal, foi ele um dos maiores críticos do regime de Mussolini, tendo sido preso e morto durante sua ditadura. Foi, acima de tudo, um grande ativo político, ao contrário da maioria silenciosa que prefere o conforto de seus cotidianos a lutar por uma situação melhor.

Durante um período tão marcado pela presença pública da política, devemos lembrar que ser “apolítico” significa aceitar e justificar o modelo vigente, com seus favorecimentos e suas desonestidades. Transformemo-nos em cidadãos ativos que batalham pela criação de um espaço do bem-comum.

De fato, Gramsci “falou e disse”.

Ingressos esgotados!!!


Os ingressos para a peça Eles não usam black-tie já estão esgotados!

Quem for para o espetáculo terá uma uma grande aula com todos os professores do CIS e a participação do CALL.

Quem não conseguiu comprar, fique atento para os nossos próximos eventos! Até lá!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

A farsa da legitimidade.

A festa da democracia está na rua. Entre candidatos de sorriso largo e plataformas curtas, a ilusão do resgate da decência desfila em carros abertos, e as promessas de honestidade e trabalho saltitam de palanque em palanque. Adversários que outrora também juravam a verdade e testificavam a incompetência de seus competidores, execrando-os com asco, agora partilham o mesmo altar sagrado. Todos contritos e convictos de que os ataques do passado eram fruto do “calor da campanha” ou, ainda, produto do furor da emotiva jovialidade.

A festa da democracia está na rua. Cores enfeitam avenidas, vestem corpos e se desbotam na história. Jingles enaltecendo candidatos e alienando eleitores são exaustivamente repetidos como preces pela eleição; promessas se esvaem por esgotos a céu aberto; modernização em bocas de dinossauros da política é a palavra de ordem! Antigos caciques, pecuaristas de eleitores, proprietários de currais eleitorais, falam de honestidade com a autoridade de um cidadão probo, cumpridor dos deveres.

A festa da democracia está na rua. Filhotes de tiranossauros apresentam-se como o novo. Herdeiros da genética maldita da politicagem rasteira, da desonestidade tradicional, da incompetência testificada pela história, detentores dos chicotes de avós e pais, algozes de um povo crédulo e miserável lançam-se ávidos pelo poder que os encastelará em torres de catedrais que custaram o suor dos nossos pais e sua manutenção exigirá o nosso e de nossos filhos e netos.

A festa da democracia está na rua. Serviçais de alcovas, camareiros dos prostíbulos das escusas negociatas, arautos dos vendedores de ilusão tocarão as trombetas da esperança e os bobos da corte dos horrores desviarão a atenção do cidadão com a mesma maestria com que alguns dos seus senhores desviaram e, quem sabe, desviarão recursos públicos das mesas de nossas filhas e filhos.

A festa da democracia está na rua. A plebe circunvizinha do poder se refestelará na lama deixada pelas sapatilhas de pelica da elite como urubus famintos em carniça de monturo. Consciências serão prostituídas por alguns níqueis; saberes serão segredados em troca de algum posto que sangrará o erário público; algumas doações de campanha serão empréstimos que deixarão rubra a falta de vergonha. Decências usarão lentes escuras e não terão coragem de olhar nos olhos da verdade!

A festa da democracia está na rua. Ao final, as sobras das mentiras, os restos apodrecidos dos conchavos, os resquícios dos enxovalhos, os dejetos da orgia e o custo da festa serão nossos. Até quando, meu Deus?!.
Adailton Figueiredo.

domingo, 20 de julho de 2008

O politeismo e o mito do dilúvio.

Assim como a maioria dos povos da Antiguidade, os mesopotâmicos eram politeístas. Na Mesopotamia, um incontável panteão de deuses e semideuses fazia parte da religião.Apesar de a mitologia mesopotâmica ser ampla e complexa, seus deuses se organizavam em uma hierarquia clara, de acordo com a influência de seu poder. Os mais importantes eram: An (deus do céu), Enlil (deus do ar), Enki (deus da água) e Ninhursag (mãe-terra). Foram eles que, através de suas palavras, teriam criado o mundo. Desse mito talvez tenha nascido a crença no poder das palavras divinas. Os filhos desses deuses estavam um degrau abaixo na escala de poder divino. Eram milhares de divindades, cada uma responsável por um aspecto do mundo, por uma parte do universo, agindo com o intuito de manter em funcionamento o plano iniciado por seus pais. Os mesopotâmicos acreditavam que esses deuses, principalmente os deuses criadores, estavam muito distantes e muito ocupados com suas tarefas, para dar atenção às necessidades dos homens. Assim, para suprir as carências humanas, também existiam os deuses pessoais, que cuidavam da orientação de cada indivíduo e de sua família.


Os zigurates

Além disso, cada cidade-estado tinha seu deus protetor, que era honrado pelo rei do local e pelos mais importantes sacerdotes. Um templo em forma de pirâmide de degraus, o zigurate, era construído para servir como sua morada. O mais famoso zigurate foi construído para o deus Marduk, localizava-se na Babilônia e também é conhecido por Torre de Babel.De qualquer forma, todos os deuses tinham características próximas às humanas (o que chamamos de antropomorfismo): casavam-se, tinham filhos, tinham ataques de fúria ou de extremo amor, podiam ser melancólicos, preguiçosos, invejosos ou, também, alegres, caridosos. Embebedavam-se, eram enganados por outros deuses, brigavam entre si por mais poder. Cada aspecto desses deuses foi relatado por uma longa série de mitos.Segundo a crença da Mesopotâmia, para que toda a existência fosse ordenada, Enlil (deus do ar) criou o me, uma espécie de "lei universal" que governava a tudo e a todos, inclusive aos deuses. Esse me gerava conforto nos mesopotâmicos, pois sabiam que tudo continuaria eternamente funcionando segundo a ordem divina. E, dentro dessa ordem, acreditavam que o homem tinha sido criado com um único propósito: servir aos deuses, que deveriam ser respeitados, alimentados e abrigados em templos, para que não lançassem sua ira sobre os mortais.


O dilúvio

Um mito que foi muito temido e, talvez por isso, compilado diversas vezes, em diferentes épocas na história, foi o mito do dilúvio. Nesse relato contava-se que, em uma época muito remota, os deuses, insatisfeitos com os homens, resolveram destruir a humanidade, fazendo cair uma chuva torrencial, que fez subir as águas dos rios. No entanto, Enki, o deus das águas, revelou o plano dos deuses a um escolhido, Ziusudra (chamado de Utnapishtim pelos acádios), aconselhando-o a construir uma embarcação gigantesca. Vejam um trecho do relato sumério desse mito, encontrado em Nippur:"Depois que, durante sete dias [e] sete noites,O dilúvio se estendeu sobre a terra[E] o grande barco foi sacudido pelos vendavais sobre as águasUtu [o deus sol] apareceu, espalhando luz sobre o céu e a terra (...)"Tal mito também foi compilado, muitos séculos depois, num dos livros que compõem a Bíblia, tendo como principal personagem um homem chamado Noé. Esse fato pode ser explicado, pois os hebreus (povo que deu origem aos judeus) tinham suas raízes ancestrais em Ur, uma importante cidade da Mesopotâmia.

*Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

sábado, 19 de julho de 2008

O "novo" português

Vocês sabem que a língua portuguesa sofrerá algumas modificações nos próximos meses. Um acordo ortográfico entre os países lusófonos unificará a grafia do português, atualmente um pouco diferente, como podem perceber os que lêem José Saramago ou qualquer autor luso.

Esta semana recebi um arquivo por e-mail que simplifica as principais reformas na nossa língua. Resolvi o colocar no blog e socializá-lo com vocês.

Para baixar a planilha do novo acordo ortográfico da língua portuguesa, clique AQUI.

Ps. Quando abrir o site do rapidshare, clique no botão FREE (situado na parte de baixo da página). Feito isso, você terá acesso ao arquivo para download.

Da falácia da igualdade de todos perante a lei (Parte 02)

Quem gostou do texto Da falácia da igualdade de todos perante a lei (ou o caso Daniel Dantas), de autoria do nosso professor Adailton Figueiredo, pode lê-lo no site do Jornal de Hoje, na coluna de Artigos, ou clicando AQUI!


Últimos ingressos!!


Últimos ingressos para a peça Eles não usam black-tie!

Temos cerca de 30 ingressos. Portanto, quem quiser participar, mas não comprou a senha, corra!

Preço: R$12,00.

Informações: 3221-3883

sexta-feira, 18 de julho de 2008

DENG XIAO PING DEFENDE AS REFORMAS ECONÔMICAS CHINESAS


Quando se abre a janela, as moscas entram. Não confundamos o afluente com o rio principal.Eliminar as reformas? O que deve ser eliminado é o que copiamos dos soviéticos, a planificação centralizada. Devemos fazer socialismo com características chinesas. Avançamos muito em relação a 78, mas não basta. É hora de libertar ainda mais nosso pensamento,aprofundar as reformas, ampliar a abertura. Não temos escolhas,não existem outras opções, de outra forma entraremos num beco sem saída e acabaremos como se acabou Moscou. Devemos, ao contrário,tomar a estrada do socialismo de mercado e percorrê-la durante cem anos. Riscos de liberalismo? Se voltássemos atrás cedendo às tendências de esquerda, então sim, reforçaríamos a direita,daríamos espaço ao liberalismo burguês. A esquerda é muito mais perigosa, a esquerda é o verdadeiro perigo.
A verdade está nos fatos,e os fatos falam claro,aqui e em todo país. Não se pode ficar agarrado a Marx como a um dogma,o marxismo é evolução. Segundo os dogmáticos,uma verdadeira economia socialista tem a planificação e a capitalista tem o mercado.mas esses são instrumentos, não são os fins.A finalidade do socialismo é fazer com que o povo viva melhor,e sabemos como estávamos antes que o mercado se abrisse.dizem que a bolsa é uma prática capitalista.Trata-se, porém, de um instrumento financeiro.Algumas práticas capitalistas podem perfeitamente ser usadas na sociedade socialista.talvez se cometam erros,mas ninguém é 100% bem sucedido.Áreas do litoral,onde há condições mais favoráveis,devem ser livres para desenvolver-se plenamente ,e não refreadas para permanecerem no mesmo nível de pobreza das internas.Que Cantão prossiga em seu desenvolvimento,que procure alcançar “os quatro tigres”,isto é,Cingapura,Taiwan,Coréia do Sul e Hong Kong.A riqueza também traz fenômenos negativos,mas em Cingapura sabem muito bem como mantê-la sob controle.
(Deng Xiao Ping,citado por MEZZETI,Fernando.De Mao a Deng,a transformação da China.Brasília:UNB,2000.p.456.)

terça-feira, 15 de julho de 2008

Da falácia da igualdade de todos perante a lei (ou o caso Daniel Dantas).


As sociedades humanas, desde o advento da propriedade privada, criaram em seu seio uma profunda desigualdade facilmente perceptível. Tal desnível político-jurídico, gerado pelas diferenças econômicas entre os agentes sociais, jamais foi disfarçado na antiguidade oriental ou ocidental. No Egito ou na Mesopotâmia, na antiga Grécia ou na Roma dos césares e augustos, o poder político estava concentrado nas mãos de uma minoria social que assumia para si as prerrogativas do poder e as benesses que somente os palacianos agraciados dos deuses usufruíam.

A idéia corrente de um poder legitimado pelos deuses era incutida em corações amedrontados e mentes intelectualmente modestas. Sacerdotes profissionais, serviçais do poder e beneficiários do Estado difundiam a ideologia que mantinha a distância entre os servidos e os servidores. No Egito, por exemplo, o faraó era um deus vivo; na Mesopotâmia, o patesi era a representação do divino; entre os hebreus, o juiz se auto-intitulava escolhido por Javé. Não obstante, na magnífica e imponente Roma o imperador era uma divindade merecedora de respeito e obediência desmedida e inquestionável por parte de uma população miserável e iletrada.

A legislação aristocrática e autoritária servia de pano de fundo para o circo de horrores políticos: definia cidadão, via de regra, como aqueles grandes proprietários de terras, de objetos e de gente coisificada. O humano desprovido de riqueza ou o cavalo servindo de montaria a um nobre não se diferenciavam! O escravo era a pura expressão do anti-cidadão na civilização que apregoava a cidadania. A inclusão era para alguns e nela não cabia o dejeto social. A lei que deveria ser seguida era aquela que fora elaborada em benefício de poucos e, talvez, por isso mesmo, não poderia ser questionada, afinal, dura lex, sede lex. A legislação era a mantenedora da ordem. Todavia, cabem aqui algumas perguntas: que ordem? A ordem da anticidadania? Da miséria? Da submissão? Sim, provavelmente não haveremos de encontrar entre artigos e alíneas complexas, tortuosas, labirínticas, com seus alçapões e arpões para peixes de segunda categoria a busca pela manutenção de outra ordem.

Levando em conta a possibilidade do descumprimento da lei, a elite dominante, precavida e com percepção de longo alcance, cria seu braço armado: o exército ou equivalente, comandado pela casta abastarda e composta por miseráveis para reprimir miseráveis em nome da segurança nacional. Fica evidente a compreensão do perigo que seria uma massa faminta, revoltada e desobediente, não temente a Deus e a alguns homens. Ao lado dos exércitos, bem treinados e armados, onde jovens que nunca manusearam canetas eram hábeis com fuzis, erguem-se os templos das torturas e monumentos da repressão: as cadeias.

Cada vez mais sofisticadas na arte da reclusão, as prisões passam a ser símbolos do poder tanto quanto os palácios na medida em que abrigam os inimigos do rei, ao passo que, nos salões palatinos, guardavam-se os amigos do rei. Uma vez encarcerado, o individuo não seria mais influência maléfica à sociedade. Perguntar-se-ia: qual sociedade?

O tempo passou, a história foi sendo construída com seus avanços e retrocessos. Todavia, três coisas não mudaram, ainda: manda quem pode, obedece quem tem juízo e cadeia não é pra todo mundo.
Adailton Figueiredo.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A engenharia das raças

Demétrio Magnoli

O Censo Escolar 2005 determina que as escolas ficam obrigadas a incluir nas fichas de matrícula a informação sobre “cor/raça” dos alunos. Essa informação associará a cada nome uma “raça”, e não está sujeita à regra do sigilo estatístico que cerca as pesquisas do IBGE. O “racismo científico” serviu como instrumento de justificação do imperialismo europeu na África e na Ásia, contornando o princípio iluminista de que os seres humanos nascem livres e iguais. A genética desmoralizou o “racismo científico”, provando que a espécie humana não se divide em raças. Para preencher o formulário do MEC, pais e alunos devem ignorar a ciência e eleger o preconceito como guia.A noção de que a humanidade se divide em raças ou etnias não é um fato objetivo da cultura ou um mito imemorial inscrito na história dos povos, mas uma construção política relativamente recente. Engajados no empreendimento do nacionalismo ou da expansão imperial, os Estados fabricaram identidades raciais e étnicas, por meio de classificações oficiais que definiram o lugar de cada grupo perante as instituições públicas. As novas fichas de matrícula escolar no Brasil atualizam essa tradição, envolvendo-a no manto roto das políticas sociais compensatórias. Elas irrigam as mudinhas da árvore envenenada do ódio racial.Os professores e os pais esclarecidos ensinam às crianças que as pessoas se distinguem por seu caráter, não pelo tom da pele, o formato do rosto ou o desenho dos olhos. Nas aulas de Biologia, as crianças aprendem a reconhecer a inconsistência científica do “racismo científico” do século XIX. Nas aulas de História e Geografia, elas descobrem as funções políticas desempenhadas pelo racismo e aprendem a desprezar as operações estatais de engenharia racial. Mas o MEC, usando o poder burocrático do aparelho de Estado, resolveu invadir todas as escolas do país e ministrar sua própria aula. Tarso Genro, esse herdeiro inesperado do pensamento social racista de Nina Rodrigues (1862-1906) e Oliveira Vianna (1883-1951), está ensinando às crianças e jovens a definirem suas identidades segundo o critério da raça. Ele está dizendo às crianças e jovens que o Estado divide os cidadãos em cinco grupos raciais. Todos iguais, talvez. Mas separados. Sinais invertidos“Veja, até você provar que um ato discriminatório é racismo, a pessoa desiste, pois é considerado como injúria. É considerado como qualquer coisa, menos racismo, justamente porque quem julga são os brancos. Quem julga são as pessoas que manejam a lei.” O conceito é da ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria da Igualdade Racial. Se isso é verdade, a “raça” é o fator determinante na esfera política e só juízes negros podem aplicar a lei, ao menos nos casos de processos de racismo. Mas, quem é negro?No Censo 2000, postos diante das opções de “cor ou raça” do IBGE, 39% dos declarantes identificaram-se como “pardos” e 6% como “pretos”. Quem são os “pardos”? O racismo do século XIX imaginava-os como o produto da miscigenação entre as “raças” branca e negra, mas a genética moderna, que nega a existência de raças humanas, mostrou que quase 90% da população brasileira tem significativa ancestralidade africana. O dicionário oferece, entre as definições de “pardo”, a seguinte: “branco sujo, duvidoso”. ONGs do movimento negro reivindicaram a substituição das opções “pardo” e “preto” pela opção “negro”, nas pesquisas oficiais no Brasil. O IBGE realizou ensaios nessa linha, que resultaram na migração da grande maioria dos declarantes que se identificavam como “pardos” para a opção “branco”. Diante da hipótese de radical “redução” da participação dos negros na população brasileira, as ONGs renunciaram à mudança. As elites do Império do Brasil interpretavam como sua missão a criação de uma civilização moderna nos trópicos. Mas o Brasil, aos olhos dessas elites, não poderia ocupar um lugar destacado no concerto das nações pois era um “país de negros”. O dilema encontrou solução no “branqueamento”, um empreendimento histórico conduzido por meio da promoção da imigração européia e da valorização ideológica da mestiçagem. Um dos frutos desse empreendimento foi o surgimento dos “pardos”, os quase-brancos da nação “européia” que se aclimatava à natureza tropical.Nesse Censo Escolar 2005, uma diretora de escola de Belo Horizonte “corrigiu”, por conta própria, todas as fichas de alunos que se declararam “pardos”, transformando-os em “pretos”. A diretora trapaceou, mas o resultado que obteve é a meta de uma vertente significativa do movimento negro: a construção de uma raça negra no Brasil. Esse programa de reengenharia racial almeja “retificar” a obra do Império, passando uma borracha sobre a mestiçagem e suprimindo os “pardos”. A Secretaria da Igualdade Racial tornou-se o centro coordenador desse programa, que é uma política de Estado. Seu instrumento principal são os sistemas de cota “racial” em universidades públicas. A qualificação de “pretos” e “pardos” para as cotas funciona como uma “pedagogia racial”, na expressão sugerida pelo sociólogo Marcos Chor Maio e pelo antropólogo Ricardo Ventura Santos, pois os dois grupos “aprendem” a identificar-se como “negros”. Raças humanas são invenções culturais do poder político. O Império fabricou os “pardos”. O Estado entrega-se agora à fabricação de um país de “brancos” e “negros”, isento de meios-tons. Invertem-se os sinais de valor, à custa da atualização, legitimação e oficialização do artigo de fé do racismo, que é a classificação racial dos cidadãos.

UMA AGENDA CLENTELISTA

Nos EUA, as políticas de Ação Afirmativa de cunho racial começaram na década de 70. No decênio anterior, a parcela de negros abaixo da linha de pobreza reduziu-se de 47% para 30%. Na “década das cotas”, a redução atingiu apenas um ponto percentual. Na África do Sul, o fim do regime do apartheid, em 1994, deu lugar a um programa ambicioso de Ação Afirmativa. Contudo, entre 1995 e 2000, a renda média das famílias negras reduziu-se em 19%, uma ínfima elite negra associou-se à elite branca e a desigualdade nacional de renda aumentou. O arcebispo Desmond Tutu, líder histórico anti-apartheid, acusou o programa de “beneficiar não a maioria, mas uma elite que tende a se reciclar”.Ação Afirmativa e aprofundamento das desigualdades sociais andam juntas pois a primeira é um elemento das políticas compensatórias implantadas por governos que adotam orientações econômicas ultra-liberais. Sob essas orientações, os fundos públicos destinados a assegurar direitos universais (educação, saúde, transporte etc.) são desviados para subsidiar a acumulação privada de capital, enquanto as políticas compensatórias funcionam como instrumentos de legitimação dos governos e cooptação dos movimentos sociais.O programa de cotas raciais surgiu nos EUA como reação conservadora ao movimento pelos direitos civis e propagou-se, entre ativistas negros, sob o patrocínio de instituições do establishment como a Fundação Ford. A ruptura do movimento negro americano com a plataforma anti-racial de Martin Luther King adquiriu dimensões internacionais na Conferência da ONU contra o Racismo (Durban, 2001). As resoluções de Durban expressam o acordo entre o pensamento ultra-liberal americano e a “elite que tende a se reciclar” da África do Sul. Elas tornaram-se doutrina oficial do governo Lula, implementada pela Secretaria da Igualdade Racial e pelo MEC. O Prouni evidencia a função das políticas de Ação Afirmativa. A compra das vagas ociosas representa vasto subsídio público ao ensino superior privado, sob a forma de isenções tributárias. O programa não abre uma única vaga nova nas universidades públicas, mas funciona como meio de cooptação política de entidades estudantis (UNE) e ONGs do movimento negro (Educafro), que hoje atuam quase como tentáculos do Estado.A operação de cooptação estatal de ONGs do movimento negro tem seu núcleo no programa de cotas “raciais” nas universidades públicas. Em torno dele, elabora-se um discurso racista de desprezo ao princípio da igualdade política dos cidadãos, que é apresentado como farsa destinada a congelar as desigualdades sociais. O apelo racial desse discurso contorna a falácia argumentativa pelo recurso à acusação de que os opositores representam um “olhar branco” ou os interesses de uma “raça branca”. A cooptação funciona, pois as cotas raciais atendem aos interesses imediatos das ONGs do movimento negro, mesmo se nada significam para os negros da base da pirâmide social. A nova agenda política dessas ONGs não prioriza os interesses da maioria dos negros, como a reconstrução da educação pública ou a restauração do poder de Estado nas favelas do Rio de Janeiro. É uma agenda conservadora de natureza clientelista, que pede privilégios a poucos e acomoda-se à expansão das desigualdades sociais.
(http://www.clubemundo.com.br)

domingo, 13 de julho de 2008

Carta escrita em 2070

"Estamos no ano de 2070, acabo de completar os 50, mas a minha aparência é de alguém de 85. Tenho sérios problemas renais porque bebo pouca água. Creio que me resta pouco tempo de vida. Hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade. Recordo-me de quando tinha 5 anos. Tudo era muito diferente. Havia árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de banho de chuveiro de cerca de uma hora. Agora, usamos toalhas umedecidas em azeite mineral para limpar a pele. Antes, todas as mulheres mostravam a sua formosa cabeleira. Agora, raspamos a cabeça para a manter limpa sem água. Antigamente, meu pai lavava o carro com a água que saía de uma mangueira, imagine! Hoje, os meninos não acreditam que a água erautilizada dessa forma. Recordo-me que havia muitos anúncios que diziam CUIDE BEM DA ÁGUA, só que ninguém ligava; pensávamos que a água jamais poderia terminar. Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aqüíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados. Aquantidade de água indicada como ideal para se beber era de oito copos diários por pessoa adulta. Hoje, só posso beber meio copo. A roupa é descartável, o que aumenta imensamente a quantidade de lixo. Tivemos de voltar a usar os poços sépticos (fossas) como no século passadoporque as redes de esgoto não são utilizadas por falta de água. A aparência da população é horrorosa: corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas causadas pelos raios ultravioletas que não são filtrados pela capa de ozônio que desapareceu. Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia . As infecções gastrintestinais, enfermidades da pele e das vias urinárias são as principais causas de morte. A industria está paralisada e o desempregoé dramático. As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam os funcionários com água potável no lugar do salário. Os assaltos por um bidão de água são comuns nas ruas desertas. A comida é 80% sintética. Pelo ressecamento da pele, uma jovem de 20 anos está como se tivesse 40. Os cientistas investigam, mas não há solução possível. Não se pode fabricar água, o oxigênio também está degradado por falta de arvores o que diminuiu a capacidade mental das novas gerações. Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos, como conseqüência há muitos meninos com insuficiências, mutações e deformações. O governo até nos cobra pelo ar que respiramos: 137 m3 por dia por habitante adulto. Quem não pode pagar é retirado das "zonas ventiladas", dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar. A qualidade do ar não é boa, mas pode-se respirar: a idade média é de 35 anos. Em alguns países ficaram manchas de vegetação nas margens de alguns rios que são fortemente vigiados pelo exercito. A água tornou-se um tesouro mais cobiçado do que o ouro ou os diamantes. Aqui, em troca, não há arvores porque quase nunca chove e, quando isso ocorre, a precipitação é de chuva ácida. As estações do ano foram severamente transformadas pelas provas atômicas e da industria contaminadora do século XX. Na época, advertia-se sobre a necessidade de se cuidar o meio ambiente e ninguém fez caso. Quando minha filha pede que lhe fale sobre minha juventude,descrevo como os bosques eram bonitos; digo-lhe da chuva, das flores, de como era agradável tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse e o quanto saudável era a nossa gente. Ela pergunta-me: Papai! Por que a água acabou? Então, sinto um nó na garganta; não posso deixar de me sentir culpado porque pertenço à geração que acabou destruindo o meio ambiente ou simplesmente não levou em conta tantos avisos. Agora, nossos filhos pagam um preço alto e, sinceramente, creio que a vida na terra não será possível dentro depouco tempo porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível. Como gostaria de voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isto enquanto ainda podíamos fazer algo para salvar o nosso planeta terra!"
Documento extraído da revista biográfica
"Crônicas de los Tiempos" de Abril de 2006.

A NECESSIDADE DA UTOPIA NEOLIBERALISMO

Cada cidadão sente a necessidade urgente – como uma barreira contra a ressaca neoliberal – de um contraprojeto global, uma contra-ideologia, um edifício conceitual que se possa contrapor ao modelo atualmente dominante".

Por Ignácio Ramonet
LE MONDE Diplomatique

Um cartaz enfeitou, em janeiro de 1998, as paredes de vários aeroportos europeus: numa paródia às imagens da Revolução Cultural chinesa, mostrava uma fila de pessoas, avançando à frente de uma manifestação, rostos radiosos, empunhando estandartes coloridos, agitados pelo vento, e gritando: “Capitalistas de todos os países, uni-vos!” Para a Forbes, revista dos bilionários norte-americanos, essa foi uma maneira debochada de comemorar 150 anos do Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels.
Foi também uma maneira de afirmar, sem medo de ser desmentidos (os cartazes não estavam rasgados nem pichado), duas coisas: o comunismo já não mete medo; e o capitalismo passou à ofensiva.

A NOVA ARROGÂNCIA DO CAPITAL
Num ano em que se comemoravam não apenas o aniversário desse célebre Manifesto, escrito por dois jovens (Marx tinha trinta anos e Engels, 28!), mas também o da revolução de 1848 (que impôs o sufrágio universal masculino e a abolição da escravatura) e o da revolta de maio de 1968, que reflexões poderia inspirar essa nova arrogância do capital?
Ela começou com a queda do muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética, num contexto de estupor político em que se manifestava o desejo de uma ilusão perdida. As súbitas revelações de todas as conseqüências, no Leste europeu, de décadas de estatização perturbaram os espíritos. Um sistema sem liberdade e sem economia de mercado surgiu em seu absurdo trágico, com seu corolário de injustiças. O pensamento socialista de certa forma sucumbiu, assim como o paradigma do progresso enquanto ideologia que pretende um planejamento absoluto do futuro.

A UTOPIA DO PENSAMENTO ÚNICO
À esquerda, aparecem quatro novas convicções que poderiam solapar a esperança de transformar radicalmente a sociedade: nenhum país pode se desenvolver seriamente sem uma economia de mercado; e estatização sistemática dos meios de produção e de comércio acarreta desperdício e penúria; a austeridade a serviço da igualdade não constitui, em si própria, um programa de governo; a liberdade de pensamento e expressão pressupõe, como condição necessária, uma certa liberdade econômica.
O fracasso do comunismo e a implosão do socialismo também arrastaram, por tabela, o desmantelamento ideológico da direita tradicional (que tinha por único suporte doutrinário o anticomunismo) e consagraram como único vencedor do conforto leste-oeste neoliberalismo. Com sua dinâmica freada desde o inicio do século, este vê desaparecerem seus principais adversários e passa a se exibir, em escala planetária, com energia decuplicada. Sonha impor sua concepção do mundo, a sua própria utopia, enquanto pensamento único, a toda a Terra.

A NEGAÇÃO DO ESTADO E DA CIDADANIA
Essa tarefa de conquista se chama globalização, e resulta da interdependência, cada vez maior, das economias de todos os países, através da liberdade absoluta de circulação dos capitais, da supressão das barreiras alfandegárias e de regulamentações, e pela intensificação do comércio e do livre mercado, incentivados pelo Banco Mundial (Bird), pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE) e pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
Estabelece-se uma desconexão entre a economia financeira e a economia real. Enquanto as transações financeiras diárias representam 1,5 trilhão de dólares em escala mundial, apenas 1 por cento desse montante é dirigido à criação de novas riquezas. O resto é de natureza especulativa.
Esse impulso do neoliberalismo se faz acompanhar, mesmo nos países mais desenvolvidos, por uma significativa redução dos atores públicos, a começar pelos parlamentos, assim como por uma devastação do meio ambiente, por uma explosão de desigualdades e pelo retorno maciço à pobreza e ao desemprego. O que representa a negação do Estado moderno e cidadania.

COLOCANDO O PLANETA EM REDE
Também assistimos a uma desconexão radical entre, por um lado, a evolução das novas tecnologias e, por outro, a noção de progresso da sociedade. O avanço da biologia molecular, que data do inicio da década de 60, associado à potencia de matemática que agora permite a informática, mandou para o espaço a estabilidade geral do sistema técnico. Seu controle pelo poder público é cada vez mais difícil. Resultado: os dirigentes políticos se confessam incapazes de medir a ameaça que significa uma tal aceleração das tecnociências. Também aí eles passam à dependência de especialistas que dirigem, por caminhos obscuros, as decisões governamentais.
A revolução da informática explodiu a sociedade contemporânea, transtornou a circulação de mercadorias e proporcionou a expansão da economia eletrônica e a globalização. Esta ainda não abalou todos os países do mundo a ponto de os transformar numa única sociedade, mas tenta convertê-los num modelo único econômico, colocando planeta em rede. Cria um tipo de vinculo social-liberal totalmente constituído por redes, separando a humanidade em indivíduos isolados um do outro num universo hipertecnológico.

O MUNDO PARECE OPACO
Conseqüências: as desigualdades se aprofundam. Existem mais de 60 milhões de pobres nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo. Mais de 50 milhões de pobres na União Européia, principal potência comercial. Nos Estados Unidos, 1 por cento da população detém 39 por cento da riqueza do país. E, em escala planetária, a fortuna dos 358 indivíduos mais ricos, bilionários em dólar, é superior à renda anual dos 45 por centos dos mais pobres, ou seja, 2,6 bilhões de pessoas...
A lógica da competitividade foi elevada ao nível do imperativo natural da sociedade. Ela faz perder o sentido de “viver juntos”, do “bem comum”. Enquanto isso, a distribuição dos lucros da produtividade se faz em benefício do capital e em detrimento do trabalho, o custo da solidariedade é considerado insuportável e o edifício do Estado de bem-estar é implodido.
Diante da brutalidade e da rapidez de todas essas mudanças, perdem-se as referências, acumulam-se as incertezas, o mundo parece opaco, a história parece fugir de qualquer tipo de análise. Em meio à crise, os cidadãos procuram um sentido para o que Antonio Gramsci definia: “Quando morre o velho e o novo hesita em nascer”. Ou, como diria Aléxis de Tocqueville, quando “o passado deixa de iluminar o futuro e o espírito caminha nas trevas”.

O DESCRÉDITO DAS ELITES E INTELECTUAIS
Para inúmeras pessoas, a idéia ultraliberal de que o Ocidente está suficientemente amadurecido para viver em condições de liberdade absoluta também é tão utópica – assim como dogmática – como a ambição revolucionária da igualdade absoluta. Perguntam-se como é possível pensar o futuro. E expressam a necessidade de uma outra utopia, de uma nova racionalização do mundo. Esperam por um tipo de profecia política, uma reflexão sobre um projeto para o futuro, a promessa de uma sociedade reconciliada, em plena harmonia com si própria.
E haveria hoje um espaço, entre as ruínas da União Soviética e os destroços de nossas sociedades desestruturadas pela barbárie neoliberal, para uma nova utopia? A priori, isso parece pouco viável, pois se generalizou a desconfiança para com os grandes projetos políticos e porque, ao mesmo tempo, se assiste a uma grave crise de representação política, a um enorme descrédito das elites tecnocráticas e da intelectualidade mais famosa, assim como a uma profunda ruptura entre os grandes meios de comunicação e o seu público.

UM CONTRAPROJETO GLOBAL
Em qualquer tipo de eleição, aumenta o índice de abstenções, assim como o voto em branco e nulo. Na França, um em cada três jovens de menos de 25 anos não tem titulo eleitoral; o numero de filiados a partidos políticos não passa de 2 por cento dos eleitores e apenas 8 por cento dos assalariados se filiam a um sindicato. À esquerda, o Partido Socialista praticamente não tem mais quadros egressos das camadas populares; o Partido Comunista, além de perder sua identidade ideológica, praticamente perdeu a identidade sociológica.
E, no entanto, muitos cidadãos gostariam de colocar um grão de humanidade na engrenagem bárbara neoliberal; procuram um antecedente responsável, experimenta o desejo da ação coletiva. Gostariam de questionar dirigentes bem definidos, em carne e osso, a quem pudesse repassar suas críticas, suas preocupações, suas angustias e sua confusão, na medida em que o poder se tornou em grande parte abstrato, invisível, distante e impessoal. Ainda gostariam de acreditar que existem respostas na política, justamente quando a política tem cada vez maior dificuldade em dar respostas simples e claras aos problemas complexos da sociedade. E, no entanto, cada cidadão sente a necessidade urgente – como uma barreira contra a ressaca neoliberal – de um contraprojeto global, uma contra-ideologia, um edifício conceitual que se possa contrapor ao modelo atualmente dominante.

A IDEOLOGIA ANARCO-LIBERAL
Construir esse projeto não é fácil, pois o ponto de partida é quase tabula rasa que as utopias antecedentes, baseadas na idéia do progresso, sucumbiram quase sempre no autoritarismo, na opressão e na manipulação dos espíritos.
Uma vez mais se sente a necessidade de sonhadores que pensem e de pensadores que sonhem, para sair em busca de um projeto de sociedade – não um projeto amarrado e empacotado – que permite opinar, analisar e frear, através de uma nova ideologia, a ideologia anarco-liberal. Esta fabrica uma sociedade egoísta, priorizando a fragmentação, a divisão.



REINTRODUZIR A NOÇÃO DO COLETIVO
Torna-se indispensável, portanto, reintroduzir a noção do coletivo, pensando no futuro. E, hoje, essa ação coletiva passa por associações, como pelos partidos e sindicatos. Durante os últimos anos, aliás, assistiu-se, na França, a uma multiplicação dessas entidades, desde grupos de moradores numa luta especifica de seu bairro às associações contra o desemprego, passando pelas sucursais locais de ONGs internacionais, como Greenpeace, anistia Internacional, Médicos do Mundo ou Transparência.
Entre outras, os partidos têm duas características desabonadores: são genéricos (pretendem resolver todos os problemas da sociedade) e locais (seu perímetro de intervenção termina na fronteira do país). Já as associações têm, por seu lado, dois atributos simétricos e inversos aos dos partidos: são temáticas (voltadas para um único problema da sociedade: desemprego, habitação, meio ambiente etc.) e além fronteiras (sua área de intervenção se estende por todo o planeta).

UM VÍNCULO FUNDAMENTAL
Na década de 80, esses dois tipos de militância (global e de urgência, com um objetivo preciso) às vezes se estranharam. Porém, parece anunciar-se um movimento de convergência. Sua junção é indispensável. Constitui uma das equações a ser superadas para restaurar a política. Pois, se é o fato que as associações nascem de baixo, como testemunhas da riqueza da sociedade civil, e preenchem as deficiências do sindicalismo e dos partidos, também não passam, à vezes, de meros grupos de pressão, assim como lhes falta a legitimidade democrática da eleição para alcançar suas reivindicações. Numa hora ou em outra, será a vez do político. Por isso é fundamental que exista o vinculo entre associações e partidos.
Baseando-se numa concepção radical de democracia, essas associações continuam achando que é possível transformar o mundo.elas constituem, sem qualquer sombra de dúvida, o embrião da ação política na Europa. Muito provavelmente, como diziam Victor Hugo (“A utopia é a verdade de amanhã”) e Lamartine (“As utopias não passam de verdades prematuras”), seus militantes reaparecerão amanhã ou depois, em outros lugares, com outras palavras de ordem, engajados em outras lutas.

POR UMA ÉTICA DO FUTURO
Para reinstituir as nações Unidas no lugar que lhes cabe o direito internacional, uma ONU capaz de decidir, de agir e de impor um projeto de paz perpétuo; para adaptar os tribunais internacionais que julgarão crimes contra a humanidade, contra a democracia e contra o bem comum; para proibir a manipulação das massas; para acabar com a discriminação das mulheres; para estabelecer novos direitos de caráter ambiental; para instaurar o princípio do desenvolvimento durável; para proibir a existência de paraísos fiscais; para incentivar uma economia solidária etc.
“Arrisca teus passos por caminhos que ninguém passou; arrisca tua cabeça pensando o que ninguém pensou”, dizia uma pichação de maio de 1968 nas paredes do teatro Odéon, em Paris. Se realmente quisermos fundar uma ética do futuro, a atual situação convida ao mesmo tipo de audácia.


Tradução: Jô Amado/Ignácio Ramonet é editor de Le Monde Diplomatique.
Fonte: Revista Caros Amigos/ano IV/n°44/novembro de 2000.

Diálogo entre pai e filho

Filho - Pai, por que o nosso país invadiu o Iraque? - perguntou Billy, de 8 anos.
Pai - Lá tinha armas de destruição em massa.
F - Mas a TV disse que os inspetores não acharam nada.
P - Os iraquianos esconderam. E nosso governo sabe que invasões funcionam mais que inspeções.
F - Se tinham tais armas, por que não usaram quando atacamos?
P- Para que ninguém soubesse que eles têm as armas. Preferem morrer a defender-se.
F - Como um povo pode preferir morrer a defender-se?
P - A cultura deles é diferente. Preferem morrer e ir logo para junto de Alá. E lembre-se que Saddam Hussein era um cruel ditador.
F - Como cruel?
P - Torturava e matava gente.
F - Como na China comunista?
P - A China é diferente, seu povo trabalha para as nossas empresas, reduzindo os custos da produção e aumentando os nossos lucros.
F - Mas a China não é comunista?
P - É.
F - E os comunistas não são maus?
P - Só os comunistas da Coréia do Norte e de Cuba, que prendem e torturam gente.
F - Como fazemos em Bagdá?
P - É diferente. Nós prendemos e torturamos em defesa dos direitos humanos e da liberdade.
F - Foi o que fizemos no Afeganistão?
P - Lá foi por causa do Osama bin Laden.
F - Ele é afegão?
P - Não, é saudita.
F - Como 15 dos 19 seqüestradores suicidas do 11 de setembro?
P - Sim.
F - E por que não invadimos a Arábia Saudita?
P - Porque o governo de lá é nosso amigo.
F - Como era Saddam em 1980, ao combater o Irã?
P - Sim, quem combate o nosso inimigo é nosso amigo.
F - E por que temos inimigos?
P - Porque muitos povos têm inveja de nosso progresso.
F - Mas, pai, inveja não é problema do invejado?
P - O invejoso de hoje pode virar o terrorista de amanhã.
F - O que é um terrorista?
P - É uma pessoa que não pensa como nós pensamos.
F - Mas não defendemos a liberdade de opinião?
P - Só a que não vai contra a nossa opinião.
F - O Iraque nos atacou?
P - Não, mas agora fazemos guerras preventivas, evitamos o mal antes que a semente dele caia na terra.
F - Nós é que produzimos as armas empregadas nas guerras?
P - Boa parte delas, pois a guerra favorece a nossa economia.
F - Quer dizer que ficamos ricos às custas da morte de outros povos?
P - É a lógica do mercado.
F - Mas, pai, uma vida humana não vale mais que um míssil? Não foi isso que você me ensinou?
P - Teoricamente sim, mas na prática não é assim. Para o mercado, só tem valor a vida que está dentro dele, a do consumidor.
F - E as outras vidas?
P - Filho, nada em excesso é bom. Muito vento causa furacão; muita água, enchente; muitas bocas, fome.
F - Quer dizer que nós matamos como Saddam e o Talibã matavam?
P - Nós matamos a favor da liberdade; eles, contra.
F - Inclusive crianças como eu?
P - Você não é como elas. Não temos culpa de os nossos inimigos terem filhos.
F - Deus aprova isso?
P - Sim, nosso presidente fala diretamente com Deus.
F - Como assim?
P - Ele escuta a voz divina em sua cabeça. Deus o elegeu para fazer a guerra do bem contra o mal.
F - Mas Deus e Alá não são a mesma pessoa?
P - Billy, chega de perguntas. E, por favor, não confunda o nosso Deus com o deles!
(Por Frei Betto)

Para refletir um pouco...

Eduardo Galeano.
“Existe uma identidade indissolúvel entre o fim e os meios. Os meios têm que ter uma identidade inconfundível com os objetivos que a gente se propõe conquistar. A maneira de chegar até esses objetivos, passo a passo, consciência a consciência, casa a casa, precisa manter a identidade daquilo que você faz com aquilo que você quer fazer. Porque às vezes, em nome do realismo, o cinismo vira uma sorte de destino inaceitável. Eu sou condenado a aceitar a realidade porque não posso mudá-la. Não é assim. Não vemos a realidade como um destino, mas sim como um desafio. Ela está nos desafiando. A definição de quais são os meios para enfrentá-la é um ponto mais complicado. Você pode cair na tentação de começar a trair demais os seus objetivos em nome de seus objetivos imediatos, perdendo de vista a sua própria imagem. Você procura você no espelho e não percebe que não está lá”.
(Eduardo Galeano)

sábado, 12 de julho de 2008

Relaxando no fim de semana (Parte 02)

Minha dica para o fim de semana pode ser encontrada no Youtube com muita facilidade. Trata-se da entrevista de Ariano Suassuna a Jô Soares. Nela, encontramos muitas explicações sobre sua obra, seus personagens e suas idéias. Além de tudo, é extremamente divertida, uma vez que ele conta vários causos.

Suassuna é considerado reacionário por muitos críticos, principalmente por sua postura contrária a globalização e a cultura de massa. No entanto, sua luta para preservar alguns aspectos da nossa cultura também é interessante, uma vez que ela nos identifica enquanto brasileiros.

Veja a entrevista na íntegra... e se prepare para rir muito!

Primeira Parte

Segunda Parte

Terceira Parte

sexta-feira, 11 de julho de 2008

José de Anchieta: O Elogio ao Genocídio Étnico

O ofício do historiador é a reflexão. A análise dos fatos exige o equilíbrio e a observação dos acontecimentos pelos mais variados prismas, levando-se em conta todas as impressões daqueles que pensaram determinados contextos. Neste sentido, longe de tê-lo como a verdade, julgo a leitura do texto abaixo, do professor Mário Maestri, como uma ferramenta essencial para a construção do entendimento da colonização do Brasil. (Adailton Figueiredo)

José de Anchieta: O Elogio ao Genocídio Étnico
Mário Maestri.
Em Os feitos de Mem de Sá, José de Anchieta defende a visão de uma América habitada por seres semi-bestializados, devido à ação do Príncipe das Trevas e, portanto, ignorantes do verbo divino. Com o cristianismo, o “cão feroz”, “sem a menor lei”, que “roia ossos humanos”, subjugado por Mem de Sá, tornava-se já ser de “coração” “manso”. A obra meritória do governador-geral garantira-lhe um “trono” no “céu”, se não fosse ingrato, desconhecendo-a como resultado da ação divina. “[...] houve nas terras do Sul uma nação que dobrara a cabeça ao jugo do tirano infernal, e levava uma vida”, na miséria e na crueldade, saciando o “ávido ventre com carnes humanas”. Mas “o pai onipotente volveu os olhares dos reinos da luz à noite das regiões brasileiras”, mandando-lhe “um herói das plagas do Norte” “que vingasse os crimes nefandos”, acabando com guerras e maldades. Para ressaltar e justificar os feitos do “herói” lusitano, José de Anchieta apresenta um nativo mais próximo às feras do que ao homem, verdadeira “raça selvagem” que “quebrantava as leis santas da mãe natureza e os divinos preceitos. ”Um ser que tinha a bestialidade registrada na sua feiúra, enquanto o lusitano resplandecia de beleza e luz. Para anular qualquer valoração positiva da sua própria descrição das armas e dos ornatos dos brasis, define-os de “medonhos e feios”. No poema, os americanos são “gente odienta”, de “corpos brutais”, enquanto Fernão de Sá, “esbelto mais que todos os outros”, tem “como um sol prateado nas armas fulgentes”. A cauinagem tupi-guarani torna-se beberrança abominável: “Poderão os beberrões deixar de encher-se de vinhos, de vomitar o que beberam e de beber novamente o que vomitarão?” “Um vomita, outro apanha na cuia o vômito e o bebe.”
Anchieta assemelha o nativo às feras sanguinárias. Refere-se ao tamoio, combatido por Fernão de Sá, nas margens do rio Cricaré, no Espírito Santo, como “raça felina”, e compara a ação dos americanos à do “tigre”, da “ursa”, da “onça parida”. A comparação é estendida aos animais mais desprezíveis. Um principal derrotado é apresentado como “sapo escondido na toca” e hábitos tupinambás, como os de “porcos”. Ao nomear os americanos como grupo, denomina-os de “horda” e “alcatéias”. Põe na boca de terceiros a lembrança da “natureza animal do índio”. Sobretudo, enfatiza sem cessar as práticas antropofágicas tupi-guarani. Para Anchieta, os nativos eram seres de “fauces” “negras” que desejando “extinguir a sede ardente no sangue que sugam”, fartavam os “ávidos ventres”, “ceifando as queixadas bestiais em corpos humanos”. As descrições da antropofagia buscam horrorizar o leitor: “[...] despedaçar corpos humanos e lançar em vasos novos os membros feitos em postas, pô-los a assar no braseiro e espetar em caniços os pedaços cortados em pequeninos.” Fala de nativos que “fincam” “os cruéis dentes” “nas goelas das vítimas, rasgam e sugam o sangue”.
É contra esses seres incapazes de aderirem, pela compreensão e convencimento, aos preceitos civis e religiosos cristãos, que se abate a ira vingadora e civilizadora de Mem de Sá, expressão excelente de uma providência divina que não se acanha em intervir diretamente no combate do bem contra o mal, do “dia” contra a “noite”, de Cristo contra o Demônio, do cristão contra o antropófago, do lusitano contra o americano, do “Norte” contra o “Sul”. Anchieta descreve com precisão jornalística, partidarismo xenofóbico e frieza desapiedada o massacre geral dos nativos, incapazes de resistirem à ofensiva lusitana, expressão do mercantilismo em expansão, na conquista do litoral e da força de trabalho americana. Sobre a questão do domínio da terra, antes indiscutivelmente pertencente ao nativo, pergunta-se se era justo “deixar ao selvagem lares e férteis campos”. E apresenta e justifica, como vimos, a conquista como a expressão da vontade divina, quando não de sua ação direta. Enlevado, descreve as “armas gloriosas” lusitanas – “nossas armas” – que, “ora decepam braços enfeitados”, “ora abatem com lâmina reluzente cabeças altivas”, revelando à luz as “entranhas” e “vísceras”, ceifando os “corpos brutais”, enviando os nativos às “sombras eternas do inferno”. Com comoção e júbilo, refere-se ao massacre e escravização de talvez oito mil nativos que seguiu à morte de Fernão de Sá: “As armas lançaram no inimigo extermínio medonho. O sangue correu em riachos que espumejavam: muitos tombaram passados ao fio da espada, muitos, de mão e pescoço presos, carregaram cadeias.”

O Sangue dos Malditos
Embriagado pela esteira de sangue quente deixado pelo avanço lusitano na costa, Anchieta canta a morte de velhos, adultos e crianças, o incêndio de aldeias, os campos talados para ultimar pela fome o inimigo abatido, segundo a glória e a vontade de deus, com a “bandeira da cruz na vanguarda”. “[...] decididos a exterminar o inimigo e devastar-lhe com a vingança do fogo todas as casas”, “devastam os campos e lançam nas ocas o incêndio”. “Então o vencedor exultando entrega as aldeias à voragem das chamas ferozes.” “Quem poderá contar os gestos heróicos do Chefe [Mem de Sá] à frente dos soldados, na imensa mata! Cento e sessenta as aldeias incendiadas, mil casas arruinadas pela chama devoradora, assolados os campos, com suas riquezas, passado tudo a fio de espada!” Um excídio que se arrasta por dias a fio, até que o braço implacável do conquistador se aplaca, cansado. “Já há quinze dias, [...] nosso exército a percorrer densas matas, incendiar casas, talar campos, matar inimigos. Era tempo de voltar aos lares, rever igrejas, casas de Deus, levando em triunfo o pendão da vitória.”
Para júbilo português e glória dos céus, derrotados, massacrados, aterrorizados, os nativos desocupavam as terras, deixando o lusitano espraiar-se, vergando-se às exigências sugeridas por Manuel da Nóbrega ao rei e implementadas por Mem de Sá. José de Anchieta assinala que o governador-geral ordenava aos vencidos que reconhecessem o “Deus do céu e da terra”, deixassem os “recôncavos, campos e florestas”, construíssem “novas aldeias”, sempre “no mesmo local”, sob a autoridade jesuíta. Que abandonassem a poligamia, a antropofagia, a guerra, quando não feita sob o comando lusitano.
O combate, derrota, massacre e submissão dos antigos senhores do litoral não foi tema arbitrário, abordado em forma livre pelo poeta por suas possibilidades literárias, mas relato do ocorrido e conhecido, no qual o autor participara em parte dos sucessos, de corpo presente. Ao realizar o elogio do jesuíta como vetor fundamental da realização, por Mem de Sá, da vontade divina no litoral brasílica, Anchieta reafirma o compromisso da sua ordem na imposição da sociedade colonial lusitana no litoral brasílico. Ao descrever o combate ao francês e seu aliado tupinambá na Guanabara, assinala: “Vejo [...] um sacerdote adestrado armado com o raio inflamado da palavra divina, membro da Companhia de Cristo Rei, para o soldado confessar [...], antes de entrar no combate [...].” Ao responsabilizar a Providência pela destruição dos nativos e calvinistas, lembra que foram os jesuítas, precisamente, “que com seus gemidos e queixas comoveram os céus [...]; eles que, dardejando do peito ardente suas setas de fogo, moveram o Pai eterno a prostrar o inimigo, incutir-lhe terror [...].”
O sábio padre Armando Cardoso pede que não se tome ao pé da letra a homenagem de Anchieta ao massacre do nativo, descrita por Darcy Ribeiro como propaganda do genocídio étnico: “[...] não nos deixemos iludir pelo estilo épico [...], principalmente a respeito da mortandade de indígenas nesses combates.” As carnificinas seriam sobretudo “quadros estilísticos da Renascença; com tintas ainda mais fortes dos romances de cavalaria medieval”. Entretanto, o notável em Os feitos de Mem de Sá não é o genocídio das populações nativas, reafirmado pela documentação histórica, mas a adesão de Anchieta ao banho de sangue do colonialismo lusitano no litoral. A proposta de Armando Castro de absolvição do pecado jesuíta contra a população americana não o impediu de justificar a obra colonial: “[...] convém, entretanto, salientar fortemente que as guerras de que trata o poema, empreendidas por Mem de Sá, a quem nunca esteve ausente o conselho precioso de Nóbrega, foram não só justas mas necessárias e forçosas, em defesa da urgência.” [RIBEIRO, 2007: 69] Uma visão em plena consonância com a avaliação luminar do próprio Anchieta, escrito em Piratininga, em 1556: “Porque para esse gênero de gente não há melhor pregação do que a espada e a vara de ferro [...].”
Na visão de Nóbrega e Anchieta, havia unidade essencial entre cristianismo e colonialismo. O homem americano enquadrava-se ao desenho de evangelização que os jesuítas concebiam, caso se submetesse plenamente à ordem estatal, social e religiosa lusitana. A visão da expansão do cristianismo que manejavam supunha o espraiamento do império lusitano nas Américas. Anchieta, ao propor que “Rei é Cristo e seu império se estende na terra, nas ondas do espaço, e de direito inalienável reclama para si as plagas brasílicas”, não se referia, certamente, à expansão meramente espiritual.

* Mário Maestri, 59, é professor do curso e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo. E-mail: maestri@via-rs.net