domingo, 20 de março de 2011

EXISTIA MOBILIDADE SOCIAL NA ROMA ANTIGA? (Solucionando dúvidas)

É lugar-comum entre os professores de História afirmar que não existia mobilidade social na sociedade romana, dada a natureza "pura" e fechada do seu grupo dominante: os patrícios. No entanto, na aula do último sábado, dia 19/03, na sala 8 (branca), surgiu uma questão importante nos momentos finais da minha explicação sobre a crise do Império Romano que pode nos levar ao aprofundamento do assunto, esclarecendo alguns pontos e, com isso, solucionando as dúvidas que podem ser de muitos alunos.


Tudo começou com o questionamento de uma aluna sobre duas questões do nosso módulo cujas respostas indicadas pelos gabaritos apontavam alternativas que afirmavam existir mobilidade social em Roma. São as questões: 20 - página 58; e 23 - página 59. Entretanto, antes de entrarmos nos detalhes do assunto, é importante saber interpretar a ideia de “mobilidade” no interior de uma sociedade.


Nós, professores de História do CIS, consideramos que a mobilidade social se define pela possibilidade de trânsito entre os membros dos grupos ou classes de uma dada sociedade. Sabemos que no mundo burguês, a mobilidade social é sua maior característica, uma vez que a ascensão social está ligada ao acúmulo de riqueza e, quanto mais ou menos riqueza, maior o trânsito entre os grupos.


Acontece que isso é plenamente possível num mundo como o nosso, onde a burguesia se tornou o grupo social dominante pelo ethos econômico, praticando o comércio e fazendo do dinheiro um instrumento de poder. E como isso pode ser bem diferente da relação entre os grupos sociais da Roma Antiga?


Sabemos que na Roma Antiga, a famosa pirâmide social era a seguinte:





Excluindo os escravos, que não podem formar um grupo ou classe social, sabemos que os demais grupos se afirmavam pela condição estamental, isto é, pela origem de nascimento. Dessa maneira, um patrício jamais se tornaria um plebeu e um plebeu jamais se tornaria um patrício. Diferente do mundo burguês, onde quem está no topo pode descer, assim como quem está embaixo pode subir. Tudo isso é simples de entender, mas a existência de algumas particularidades na composição social da Roma Antiga pode confundir um pouco o nosso entendimento sobre o assunto.


É que na Roma Antiga existia um grupo intermediário, os clientes, que pode ser entendido como a existência de uma melhoria das condições sócio-econômicas (não políticas) de um plebeu. Raciocinemos juntos: se um cliente é empregado de um patrício, de onde ele veio, qual é a sua provável origem? A resposta é imediata: da plebe, uma vez que não havia possibilidades de um patrício se tornar empregado de outro, isso seria um caminho improvável para o patriciado, grupo fechado de características quase dinásticas.


A outra situação particular residia na relação muito próxima entre plebeus (homens livres) e escravos (homens não-livres). A existência de uma maciça escravidão na República e no Império romano aproximou esses dois contingentes populacionais (os maiores). Em alguns momentos da história romana, é possível mesmo afirmar que havia dificuldade em se distinguir o plebeu do escravo, dada a semelhante situação sócio-econômica de ambos. Além do que, havia uma prática muito comum dos donos de escravos em praticar a alforria de muitos, o que dependeria da situação social ou econômica em que se encontrasse.


A partir disso, raciocinemos mais uma vez: se um escravo é alforriado, qual é o seu destino? Temos mais uma resposta bem direta: se tornar um plebeu, contribuindo com o crescimento da multidão das ruas de Roma.


O que podemos concluir dessa segunda situação? Que um homem não-livre se tornou um homem livre, passando a fazer parte de um grupo social romano, porém, sendo entendido como um homem liberto e jamais um homem livre de nascimento.

Caros alunos, o que fica constatado sobre o assunto a partir das situações apresentadas é o seguinte: na Roma Antiga, havia CERTA mobilidade social, de caráter sócio-econômico, não de natureza de classe, entre a clientela e a plebe. Vejamos de forma esquemática:

1. PATRÍCIOS – jamais desciam de posição social, mantendo sempre o status de grupo social dominante. (não há mobilidade de natureza alguma)
2. CLIENTES – poderiam ter origem na plebe, uma vez que se tratava de um grupo afirmado pela situação puramente econômica. (mobilidade econômica)
3. PLEBEUS – sempre na base da pirâmide social, poderiam compor a clientela como também poderiam ter origem entre os escravos que foram alforriados. (mobilidade sócio-econômica)
4. ESCRAVOS – não são considerados grupo ou classe social, porém, após a alforria poderiam passar a compor a massa plebéia e, em alguns casos mais raros, poderiam chegar a ser, inclusive, clientes. (mobilidade sócio-econômica)

Como podemos ver, pensar a dinâmica social da Roma Antiga é mais complicado do que poderíamos imaginar. É comum entendermos que não havia mobilidade social de forma plena entre os grupos sociais existentes, pois o patriciado permanecia sempre no topo da sociedade e jamais um grupo debaixo poderia chegar até ele. Por outro lado, os grupos que estão abaixo dos patrícios poderiam se relacionar, inclusive abrindo as portas para alguns escravos alforriados, que chegaram a se afirmar como romanos por se estabelecerem na sociedade.

Dessa maneira, as questões das páginas 58 e 59 do módulo (20 e 23) trazem as situações que abordei nesta breve análise. Elas envolvem a clientela, a plebe e os escravos, jamais os patrícios. Isso configura a ideia da existência de CERTA mobilidade sócio-econômica entre ALGUNS grupos, visão que pode ser bem aceita se encarada da maneira correta.

Quem ainda não se deparou com as questões da apostila, confiram e tirem todas as suas dúvidas com relação a esse importante e interessante tema da História da Roma Antiga.

Espero que muitos tenham esclarecido suas dúvidas e obrigado aos alunos da SALA 8 (Branca) por terem despertado a atenção para o rico debate.


Prof. Mariano de Azevedo.

3 comentários:

Liliane disse...

Excelente esclarecimento, professor. É importante que os alunos atentem para as exceções que possam existir, até pq as relações sociais são mais complexas do que imaginamos. Esse é o espírito. Uma História de "análises" e não de "memorização".

Talita disse...

Professor, mas me diga uma coisa, afinal, qual classe social está abaixo dos patrícios: os clientes ou os plebeus? Porque a imagem, assim como a explicação do professor Wellington, dizem que os plebeus estão abaixo dos patricios e por toda minha vida escolar, assim como o que vc disse, eu aprendi que os CLIENTES estão abaixo dos patrícios. Então, qual o correto?

Mariano de Azevedo disse...

Talita, em primeiro lugar, obrigado pela participação.

Bem, o gráfico do post é meramente ilustrativo, ele tenta mostrar os grupos sociais pelo fator quantitativo, o que explica a ordem na qual os grupos estão postos.

Com certeza o prof. Wellington falou que os plebeus estão abaixo dos patrícios porque eles formam o grupo diretamente explorado pelo poder político e econômico do patriciado.

Os Clientes, em níveis sócio-econômicos, estão acima dos plebeus, de acordo com o que você sempre soube. No entanto, eles não se chocam com o poder dos patrícios, uma vez que são seus subordinados imediatos. É por essa razão que algumas explicações, como a do prof. Wellington, colocam os plebeus como o grupo que está diretamente abaixo dos patrícios. É uma questão de mostrar o conflito social e não de explicar quem é mais rico ou mais pobre.

Neste sentido, em termos SÓCIO-ECONÔMICOS, temos os grupos postos na seguinte ordem:

Patrícios > Clientes > Plebeus.

Em em termos políticos, temos a seguinte ordem:

Patrícios > Plebeus (os clientes não se destacam no confronto político, pois são empregados e carregam os motivos dos seus patrões)


Espero que sua dúvida tenha sido esclarecida. Um grande abraço e até breve!