quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Zimbábue e a “alegria” do povo junto à seleção

Enquanto Robinho reclamava da Jabulani, a bola da copa, e se esquecia o nome do país onde jogaria, outros membros da seleção brasileira disseram que estavam felizes em viajar para o Zimbábue, pois teriam a oportunidade de levar alegria ao povo daquele território. Felipe Melo, em entrevista, disse que “o Zimbábue é país de muitas brigas políticas e assassinatos. É legal termos a oportunidade de levar alegria a um país sofrido. Estou muito feliz de poder estar nesta partida. Será bacana.”

Discurso tacanho esse de Felipe Melo, repetido por jogadores e comissão técnica. Primeiro, porque todos sabem que a Seleção Brasileira de Futebol é um produto vendido pela CBF, que não se importa senão com o lucro que a camiseta amarela dá aos cartolas. E digo isso porque os cofres da confederação receberam quase US$2.000.000,00 (dois milhões de dólares!) pelo jogo realizado em Harare. Segundo, porque eles deveriam conhecer pelo menos um pouco da realidade que encontrariam na capital, local do jogo.

O Zimbábue é um dos países mais pobres do mundo, governado pelo ditador Robert Mugabe desde o final dos anos 1980, a punho de ferro, com intensas perseguições políticas e assassinatos de opositores. Os índices do país são vergonhosos: as estatísticas não-oficiais, feitas por organizações internacionais, calcularam a inflação anual zimbabuense em mais de 9.000.000%; as taxas de desemprego chegam a 80% da população; o IDH tem índice em torno de 0,5, o que significa que está acima apenas de países como Níger, Ruanda ou Malauí; 65 em cada 100 crianças morrem precocemente; a maioria das pessoas não consegue chegar aos 50 anos; e o PIB per capita é menor do que US$400.

Em revista publicada no dia 12/03/2008, a Veja explica a inflação do Zimbábue (clique na imagem para aumentá-la).

Todavia, não nos esqueçamos que o futebol é o grande Soft Power brasileiro, uma maneira de aumentar nossa influência no mundo e propagandear as ações do Brasil. Em 2006, quando a Seleção foi jogar no Haiti, todos os analistas entenderam ter sido um grande golpe de mestre da política internacional brasiliana, pois estávamos liderando as ações de pacificação daquele país e precisávamos do apoio de sua população. Nada melhor do que o futebol, com “Ronaldinhos” e companhia limitada, para gerar este sentimento. Mas, o Zimbábue?

De fato, se fosse apenas para levar alegria ao povo do Zimbábue, a seleção brasileira teria cumprido o seu papel. Entretanto, não devemos esquecer quem pagou a seleção e apareceu ao público ao seu lado. Robert Mugabe, o ditador corrupto, dentro daquela máxima do Pão-e-circo, levou o circo para a população. E um circo caro, com estrelas do Real Madrid, Roma, Internazionale, Milan, Barcelona e por aí vai. Mas se esqueceu de dar o pão.

E o povo zimbabuense grassa na fome, na miséria, no analfabetismo e na epidemia de AIDS enquanto a CBF recebe quase dois milhões de dólares para participar do evento consagrador de um líder que já deveria estar no passado. Uma vergonha, sinceramente.


Na internet, há manifestações contrárias à situação vivida pelo povo zimbabuense.

4 comentários:

Amanda Freire disse...

Faço minhas as suas palavras: "Uma vergonha, sinceramente."

Renan Yuri disse...

Caramba...

Anônimo disse...

É lamentável, pois o dinheiro que foi utilizado para pagar a CBF poderia ter sido utilizado para tentar resolver alguns dos vários problemas do país.

Geração coca-Kola disse...

Lastimável. Mais quantos shows particulares ditadores como Robert Mugabe pagam pelo mundo? O capitalismo do Estado e para o Estado nunca deixará de existir.