domingo, 6 de fevereiro de 2011

Da utilidade da História para as nossas vidas.


Muitos alunos se perguntam por que temos que estudar História na escola. A resposta parece ser óbvia para a maioria: “por que o Vestibular exige”. Mas eu gostaria de fazer apenas uma pequena reflexão sobre isso, dizendo, de início, que não é por isso (ou pelo menos, apenas por isso) que temos que analisar e interpretar constantemente o nosso passado.

Ninguém aqui ousaria dizer que o ontem não é importante para nossas vidas pessoais. Por mais que a gente goste de viver o presente, o hoje e o agora, e diga bem alto que “quem vive de passado é museu”, a gente sabe, no fundo, que o ontem organiza a nossa vida de hoje. Uma decisão equivocada, um pensamento torto, uma ação precipitada de ontem são suficientes para que o hoje seja repleto de reflexões e novas decisões: “farei tudo diferente, pois ontem eu errei”.

Assim como na perspectiva microscópica das nossas vidas pessoais, a História macroscópica da humanidade olha para trás sem tirar os pés do presente: fala do hoje pelo ontem. A humanidade segue o seu curso há milhares de anos (até milhões, se pensarmos nos tempos primitivos), errando, acertando, experimentando, corrigindo e superando.

A experiência nos tem ensinado a buscar os acertos em detrimento dos erros do passado. É fato que nem sempre isso acontece, mas a História nunca foi a fórmula mágica para a cura de todos os males, e sim uma ferramenta de busca. Através dela, passamos a nos conhecer melhor enquanto humanidade.

O seu objeto de estudo é, como diria o célebre historiador Marc Bloch, assustadoramente bonito: o homem vivendo em sociedades e em tempos diferentes. Conhecendo a história da nossa espécie, passamos a conhecer como tudo aquilo que nos cerca, imaterial ou materialmente, chegou até aqui. Fazemos História mais com perguntas do que com respostas: quando? Como? Onde? Por quê? Estudamos História não apenas porque somos curiosos, mas porque somos inquietos e nos sentimos incomodados por não saber explicar aquilo que nem sempre é lógico ou coerente.

Lógica e coerência são termos aplicados às ciências exatas e naturais, ao mundo das fórmulas, dos cálculos, do império da razão disciplinada, do mundo sem porquês, onde parece não existir a estranha ação humana que sempre pergunta: por que isso é assim? Quem disse isso pela primeira vez? Como e quando se chegou a essa conclusão? Lógica e coerência nem sempre combinam com a História.

Os períodos históricos, seus acontecimentos e contextos, são muitas vezes contraditórios e nem sempre concordamos com eles. Mas isso se dá porque lidamos com pessoas que, como nós, desejaram, sentiram, exageraram, erraram e acertaram no tempo de suas vidas. Estudamos as ações humanas, as vontades de reis, imperadores e líderes que acreditavam serem deuses. Interpretamos ações que nem sempre entendemos pela lógica ou coerência, e sim porque sabemos que os homens são oportunistas, cheios de ímpetos e, quando têm poder e oportunidade, demonstram aquele desejo de ser bem mais do que sua pequena condição humana pode lhe oferecer.

Aí eu pergunto: quem de nós acertou sempre? Quem de nós nunca quis ter mais do que temos? Quem de nós nunca quis ser mais do que somos? Quem de nós nunca tomou uma atitude precipitada, impensada, que nos levou ao erro? Quem de nós nunca errou conscientemente por querer simplesmente aproveitar a oportunidade? Quem de nós nunca refletiu sobre o que fizemos ontem para rever nossa postura hoje?

E é assim mesmo: a História é como a gente, cheia de gente que, como nós, procurava viver os seus tempos de acordo com aquilo que achava certo ou errado; bonito ou feio; importante ou banal.

Conquistamos o planeta porque temos algo que nenhum outro animal possui: a consciência. Como a classificação científica da nossa espécie nos diz: somos homens que sabemos que sabemos (sapiens sapiens). E como ter consciência daquilo que somos sem memória? Como sermos inteligentes e superiores sem a capacidade de nos lembrar de quem somos?

Lembrança e memória: isso sim combina com a História. Gente sem memória, não tem História; povo sem História, não existe. Logo, a História está em todos os lugares para nos dizer que sempre precisamos nos lembrar de quem somos ou de quem nós fomos no passado. Sem a lembrança, jamais conseguiremos ser aquilo que desejamos para o dia de hoje.

Não desprezem o ontem, use-o hoje.

Sejam bem vindos ao histórico ano de 2011!


Mariano de Azevedo

9 comentários:

Rebeca disse...

E isso é, definitivamente, a pura verdade. Até mesmo sem que a gente perceba, cada passo nosso é pensado de acordo com o que já aconteceu, seja a nós mesmos ou a outras pessoas, em tempos tão distantes. Desde em quem vamos votar na próxima eleição até de que maneira vamos estudar cada matéria esse ano de vestibular (porque quem já fez mais de um sabe como a experiência é importante). :)

Maxwell Silva disse...

"Assim como na perspectiva microscópica das nossas vidas pessoais, a História macroscópica da humanidade olha para trás sem tirar os pés do presente"

Pode ter certeza que esta é a melhor passagem do texto.

Suzana Melissa disse...

Artigo digno de todos os elogios. Concordo plenamente com o professor Mariano, que mais uma vez nos surpreende com palavras convincentes e coerentes. Parabéns e continue com esse profissionalismo impecável!

Amanda Freire disse...

Nossa! Muito bom o texto, Mariano. A frase: "Sem a lembrança, jamais conseguiremos ser aquilo que desejamos para o dia de hoje" resume perfeitamente a importância da História nas nossas vidas!
Particularmente, assino embaixo de tudo que foi dito! ;)
Beijocas

Liliane disse...

Aí está uma prova de que a História não é simples "decoreba". Palavras objetivas que demonstram a importância que esta disciplina tem para nós. Aos vestibulandos: vocês estão em “boas mãos”. Aproveitem a oportunidade de estudar com esses profissionais tão capacitados, usufruam ao máximo o que eles têm a oferecer e não pensem que será apenas um "conhecimento para o vestibular". A História nos permite enxergar o hoje com outros olhos. Sucesso a todos os vestibulandos e professores neste ano de 2011. Excelente texto, Mariano.

Mariano de Azevedo disse...

A inspiração para o texto surgiu a partir do momento em que eu me preocupo e penso em todos vocês, alunos. Agradeço os elogios e a participação de todos aqui no nosso blog. Isso é de extrema importância para todos nós, professores do CIS.

Anônimo disse...

texto muito bom.
" povo sem história, não existe"
Com certeza essa afirmação é correta, mas uma vez nos surpreendemos com um dos textos de Mariano.
Parabéns!!!!!!!!

Mariano de Azevedo disse...

Obrigado, meu caro Anônimo! Fico feliz que tenha gostado. Grande abraço!

Anônimo disse...

Meus parabéns professor Luis Eduardo, essas são palavras de quem, sem duvida alguma, ama o que faz e que sabe transmitir esse amor a quem quer senti-lo. Meus Parabéns mais uma vez, espero ser também uma profissional apaixonada pelo que faz, pois é de profissionais assim que o mundo precisa. PARABÉNS